Mudar de vida ou a economia portuguesa na globalização (I) 

Portugal não está a aproveitar as condições que estão ao seu alcance para retomar o crescimento. Não estamos a falar de condições conjunturais favoráveis, como o nível dos preços dos combustíveis, o nível das taxas de juro, o fornecimento de liquidez à economia da Zona Euro pelo BCE, ou a evolução da taxa de câmbio do euro.

A forma de inserção da economia portuguesa na globalização que caracterizou as últimas décadas está esgotada. Não permite assegurar o crescimento que Portugal precisa, num contexto mundial de economias emergentes e em desenvolvimento.

 

Transformações sucessivas, do contexto externo e das nossas capacidades internas, permitem encarar uma forma mais próspera de integração na competição internacional. Desde que se explore melhor, de forma inteligente e integrada, os ativos já existentes, que podem ter um impacto estrutural duradouro na nossa presença na economia global.

 

O contexto internacional para a retoma do crescimento

 

A mudança do nosso posicionamento na globalização vai ter de ocorrer num período marcado por vários processos.

 

A economia mundial está a crescer mais lentamente do que muitos esperavam, tendo em conta a convergência de políticas monetárias estimulativas que dificilmente poderão continuar por muito mais tempo. Acumulam-se incertezas quanto ao futuro geoeconómico mundial, na presença de duas visões contrastadas para sua organização - uma centrada na Eurásia, outra no papel dos espaços oceânicos como organizadores naturais da globalização. A economia da Zona Euro não apresenta perspetivas de crescimento otimistas. O ciclo das matérias-primas, com a elevação conjunta e prolongada dos seus preços, permitiu-nos ampliar e diversificar as nossas exportações nos últimos cinco anos para economias em desenvolvimento, mas está a esgotar-se.

 

Estes processos tornam urgente para Portugal a definição de uma estratégia para crescer na globalização, assente na economia do conhecimento.

 

Vamos referir sucintamente, neste texto e noutro que se lhe seguirá, as modificações ocorridas que nos favorecem, face aos processos referidos, a caracterização de uma alternativa e as condições para a sua concretização.

 

Transformações realizadas, condições para optar por uma nova presença na economia global

 

Destacamos as seguintes mudanças favoráveis que se deram na economia portuguesa:

 

- Melhorias nas infraestruturas e nos serviços de transporte internacional de mercadorias e de pessoas e na conectividade digital permitem a Portugal aceder mais facilmente a mercados externos diversificados e aumentar as condições de atratividade para investimentos com lógica intercontinental, o que é particularmente relevante face à emergência de investidores internacionais com quem temos elos que resultam de contactos históricos; 

 

- Progressos na formação de pessoas, a vários níveis de escolarização. Se não temos massa crítica para abordagens setorialmente concentradas de especialização, adquirimos diversidade de conhecimentos e competências para tarefas que exigem interdisciplinaridade. Grande parte da população em idade ativa, em particular os mais jovens, tem níveis de formação que, quando combinados, se adaptam a novas necessidades;

 

- Melhorias muito significativas na capacidade em ciência e tecnologia decorrentes da qualidade de instituições de ensino superior, de centros de investigação e sua internacionalização, bem como na existência de um ecossistema de inovação que já integra a parte mais moderna do tecido empresarial.

 

Deram-se igualmente transformações significativas e promissoras na composição da oferta portuguesa ao exterior, de que são exemplos:

 

 - O crescimento de exportações de bens e serviços com mais valor assente em qualificação de emprego e em maior intensidade tecnológica, de muitas empresas - quer grandes empresas e PME nacionais, quer filiais de multinacionais instaladas em Portugal, quer ainda, e cada vez com mais significado, start-ups que "nascem globais"; 

 

- O desenvolvimento de setores de meios de produção - das máquinas ao software ou às soluções de automação e robótica - que são elos importantes das cadeias de inovação e se articulam com a modernização de alguns setores tradicionais de bens de consumo;

 

 - A dinâmica de crescimento e diversificação das exportações da agricultura e das agroindústrias;

 

- A diversificação da oferta turística por regiões e por segmentos, desde o imobiliário residencial de qualidade aos desportos de ar livre, aproveitando a vantagem climatérica noutras vertentes além do sol e praia, e ao turismo urbano, tirando partido do investimento na recuperação do património histórico, mais acessível pela melhoria das condições de mobilidade.

 

 

Objetivos para uma nova dinâmica de crescimento

 

De entre os objetivos a atingir para assegurar uma dinâmica de crescimento, destacamos:

 

- Oferecer claras vantagens diferenciais para que Portugal se torne numa boa localização no espaço europeu para criar empregos qualificados, desenvolver projetos inovadores, sediar capitais e competências técnicas e atrair residentes e investidores;

 

- Orientar a economia para a exportação de bens, serviços, conteúdos e conceitos, diversificados e inovadores, que explorem as alterações positivas que se referiram atrás, ascendendo nas cadeias de valor e explorando atividades e/ou novos segmentos de mercado dinâmicos;

 

- Aumentar a produtividade nos setores exportadores e melhorar a eficácia e eficiência nos setores mais protegidos da concorrência internacional (educação, formação, saúde…), contribuindo para ganhos de produtividade necessários para superar as consequências do envelhecimento da população.

 

No próximo e último texto vamos ocupar-nos das novas funções que Portugal pode desempenhar na globalização, que lhe permitiriam crescer mais depressa, bem como dos objetivos operacionais para concretizar essas funções.

 

Nota: a segunda parte deste artigo sai na próxima edição do Negócios.

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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comentários mais recentes
5640533 13.12.2016

O tuga ignorante, o que é bulgarizacao?

Ciifrão 13.12.2016

Em Portugal só o Estado mexe com a economia, foi o que aconteceu quando não havia as restrições atuais ao endividamento. Grandes empresas só de obras públicas.

PauloPachecoFerreira 13.12.2016

É para rir!

Estes tipos são mas é bulgaros, tendência "Monsieur de la Palisse": só dizem bulgaridades e das mais do que evidentes ...

Desde o prémio nobel de economia ao Trump, tudo assina por baixo, incluindo este parvo aqui.