Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 16 de abril de 2017 às 21:18

Mudar o tom não muda a realidade

“Com a esquerda europeia a lutar onde tem o poder, a aliança governativa portuguesa é uma excepção notável”, escreveu a Reuters no final de Março.

"O Governo conseguiu o que muitos pensavam ser impossível. Além de manter a esquerda e Bruxelas felizes, há sem dúvida uma melhoria no ambiente nacional depois do cinzento da era da austeridade", notou a edição europeia do Politico em Fevereiro. Apenas cinco meses antes, a CNBC perguntava a Mário Centeno se estava preparado para evitar um novo resgate e o Financial Times escrevia isto: "A questão [num país com] um governo socialista minoritário, apoiado pela extrema-esquerda [é saber] se os problemas de Portugal tornarão inevitável um segundo resgate". Confuso?

 

A mudança de tom lá fora sobre o governo de Portugal e sobre Portugal – duas coisas distintas mas que se sobrepõem nas maioria das análises – é evidente e não se limita aos julgamentos tipicamente situacionistas da imprensa. Em reuniões com investidores já ninguém pergunta a Mário Centeno quem são os ministros comunistas do governo – essa ainda era uma dúvida em Junho do ano passado – e o ministro não tem de passar o tempo a desmentir a sua alegada intenção de reverter tudo o que a troika fez. Mesmo nas cépticas análises das agências de rating se detecta algum reconhecimento: este governo não só é estável, uma surpresa, como conseguiu bater a meta do défice orçamental, uma surpresa ainda maior. No mercado a pressão abate ligeiramente, mesmo enquanto o Banco Central Europeu diminui as compras de dívida da República.


A expectativa muito baixa com que o governo partiu em Dezembro de 2015 devia-se à sua aliança inédita com a esquerda radical – é por isso natural que tenha sido o pragmatismo dessa esquerda a maior fonte de surpresa até aqui. O incentivo para este pragmatismo estava inscrito à nascença da "geringonça": não se podia apear uma maioria eleita e depois falhar nos meses seguintes dando razão à detestada direita. Lá fora e cá dentro poucos perceberam isto (este colunista tardou em perceber), como poucos perceberam o relaxamento gradual da camisa de forças de Bruxelas. O resultado orçamental de 2016 – que vai "além de Bruxelas" e é uma surpresa mesmo para quem contasse à partida com o pragmatismo da esquerda – cai com estrondo em cima dessas expectativas demasiado baixas. Legitima a "geringonça" cá dentro e muda o tom lá fora.

Esta mudança não anula, contudo, a realidade. Quem olha a partir de fora percebe uma consolidação orçamental assente num aumento da tributação indirecta, no esmagamento do investimento público e numa contenção de outros gastos (conter e cortar não é o mesmo); observa um rácio de dívida pública de 130% do PIB, que continua a sofrer com a herança dos excessos do passado (na banca pública e privada); e constata a ausência de reformas de inspiração mais liberal (expectável numa aliança política como a "geringonça"). Quem olha para a Europa percebe, por outro lado, como o recuo futuro do programa do BCE e o risco político imediato em França e Itália são factores que podem perturbar muito países mais vulneráveis como Portugal.

Por outras palavras: bater expectativas baixas é bom para o governo e para o país, mas era um mínimo olímpico depois de um resgate. Diz pouco sobre o que está a ser feito do ponto de vista estrutural para resolver bloqueios em várias áreas e está longe de garantir qualquer saída da zona de perigo a Portugal. É bom não perder isto de vista entre a distensão interna e os flutuantes elogios externos. 

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mais votado Anónimo 17.04.2017

Numa altura em que a maioria do tipo de empregos prevalecentes na economia portuguesa está prestes a ser amplamente automatizada por via das inovadoras soluções, extremamente económicas e eficientes, já disponíveis no mercado global, é forçoso saber alertar para mais este erro de estratégia e planeamento que é querer garantir a fantasia verdadeiramente lunática das carreiras e empregos intocáveis e para toda vida, e ao mesmo tempo decretar múltiplos aumentos salariais. É que se elevassem um pouco os salários por via legislativa e regulatória, mas deixassem despedir excedentários num mercado laboral flexível no sector público e privado, tudo bem. A automação levada a cabo num racional e oportuno processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital, dar-se-ia, elevando assim todos os mais cruciais padrões e indicadores económicos da economia portuguesa. Mas impedir o despedimento é condenar mais uma vez a economia portuguesa ao empobrecimento e fracasso.

comentários mais recentes
surpreso 17.04.2017

MAIS NENHUMA "ESQUERDA" EUROPEIA ,MENTIU TANTO AOS SEUS ELEITORES,COMO A PORTUGUESA.ISSO SIM,SERIA JORNALISMO

Anónimo 17.04.2017

Numa altura em que a maioria do tipo de empregos prevalecentes na economia portuguesa está prestes a ser amplamente automatizada por via das inovadoras soluções, extremamente económicas e eficientes, já disponíveis no mercado global, é forçoso saber alertar para mais este erro de estratégia e planeamento que é querer garantir a fantasia verdadeiramente lunática das carreiras e empregos intocáveis e para toda vida, e ao mesmo tempo decretar múltiplos aumentos salariais. É que se elevassem um pouco os salários por via legislativa e regulatória, mas deixassem despedir excedentários num mercado laboral flexível no sector público e privado, tudo bem. A automação levada a cabo num racional e oportuno processo de substituição de factor produtivo trabalho por factor produtivo capital, dar-se-ia, elevando assim todos os mais cruciais padrões e indicadores económicos da economia portuguesa. Mas impedir o despedimento é condenar mais uma vez a economia portuguesa ao empobrecimento e fracasso.