Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 26 de outubro de 2017 às 21:00

Na banca fecha-se um capítulo, mas não acaba o romance

A venda do Novo Banco na semana passada encerrou o que se pode chamar o capítulo da emergência na banca em Portugal - mas este romance ainda tem muita acção para oferecer.

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Apenas há um ano e meio, a Caixa Geral de Depósitos precisava com urgência de capital e de uma nova gestão, o BCP precisava de capital e de um novo accionista, o BPI precisava de resolver um impasse entre accionistas para cumprir um prazo dado pelo regulador em Frankfurt e o Novo Banco era um banco de transição sobre o qual pairava o fantasma da liquidação. Estes bancos valem dois terços do mercado bancário o que fazia da sua instabilidade um problema sistémico para o país.  

 

O cenário é agora diferente, para melhor. A Caixa foi recapitalizada com (muito) dinheiro público e está a cumprir, grosso modo, o plano de reestruturação deixado por António Domingues. O BCP tem um novo accionista, a Fosun, que reforçou o capital do banco. No BPI, os espanhóis do CaixaBank assumiram o controlo. E o Novo Banco deixou de ser um banco de transição quando um fundo-abutre norte-americano, o Lone Star, ficou na semana passada com 75% do negócio.

 

O cenário está, contudo, ainda longe de ser o ideal. As condições difíceis em que esta estabilização aconteceu - em bancos que por erros próprios e pelo impacto da crise perdem muito dinheiro num país periférico do euro - não deram grande margem para andar a escolher a dedo accionistas ou desfechos ideais. Isso reflecte-se nos riscos e custos que esta estabilização bancária implica para o futuro.

 

Por um lado, confirma um quadro em que toda a banca comercial relevante, com excepção da Caixa, está em mãos estrangeiras. Pode dizer-se que se as mãos estrangeiras gerirem melhor do que as nacionais nada há a obstar a isto, mas isso é ver só parte da imagem. Em momentos de aperto, como vimos em 2011, é bom ter bancos nacionais que não sejam meras filiais de bancos estrangeiros. Esta estabilização reforça a importância de ter a Caixa pública uma vez que essa é neste momento a única forma de ser portuguesa. (É de duvidar que, numa nova grande crise, algures lá à frente, o Estado resista, ou possa resistir, a vender este último grande anel.)

 

Por outro, a estabilização não matou o risco em alguns casos. No BCP, por exemplo, a entrada da Fosun é um risco, no sentido em que estamos a falar de um conglomerado sobreendividado, dependente de um poder político chinês opaco e cujos meandros permanecem um mistério em Portugal. Se a isso somarmos a turbulência que se nota em Angola à volta do outro accionista de referência do BCP, a Sonangol, vemos que há ali potencial claro para mais capítulos agitados. No Novo Banco, o Lone Star não vai "desfazer" a instituição, mas vai esmagar custos, investir o mínimo para reforçar a competitividade do banco, ter rédea firme no crédito e aproveitar a garantia dada pelo Fundo de Resolução (que não conseguiu nomear um administrador para o banco) para limpar a fundo a carteira de crédito e maximizar o lucro na venda. A garantia do Fundo de Resolução tem o Estado atrás - ou seja, para os contribuintes a história seguramente ainda não acabou.  

 

A somar a isto há os problemas em bancos mais pequenos - dos quais o Montepio tem sido o único noticiado -, supervisionados pelo Banco de Portugal (os maiores estão sob a alçada de Frankfurt). E há ainda o resto: o malparado por limpar, a rentabilidade por recuperar. Não se sai de uma crise como a que vivemos em pouco tempo e os bancos não são excepção. A venda do Novo Banco na semana passada encerrou o que se pode chamar o capítulo da emergência na banca em Portugal - mas este romance ainda tem muita acção para oferecer.

       

Jornalista da revista Sábado

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