Jim O'Neill
Jim O'Neill 28 de Dezembro de 2016 às 20:00

Na direcção de um caminho para a indústria

Se Trump quer realmente ajudar os Estados Unidos, precisa de se focar nos pontos económicos essenciais, em vez de nas questões simplistas – e muitas vezes falsas – e populistas.

Há dias, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, usou o Twitter – o seu meio de eleição – para dizer que não precisa da autorização da China para contactar Taiwan, porque a China não pede permissão para desvalorizar a sua moeda. Nesse momento, a minha esperança que o abanão que Trump provocou pudesse ser economicamente benéfico para os Estados Unidos, diminuiu.

 

Acredito que as economias desenvolvidas precisam de um abanão para deixarem para trás tanto o mal-estar do pós-2008 como a sua dependência excessiva de uma política monetária expansionista. Dada a propensão de Trump para abanar as coisas, ele parece um bom candidato para o cargo. Mas se Trump quer realmente ajudar os Estados Unidos, precisa de se focar nos pontos económicos essenciais, em vez de nas questões simplistas – e muitas vezes falsas – e populistas.

 

A julgar pelas acusações que fez contra a China, parece que Trump simplesmente está a tentar irritar os seus apoiantes – e não avança com nenhuma agenda construtiva. Afinal, qualquer observador razoável das questões chinesas – incluindo alguns dos assessores de Trump com quem no passado trabalhei – sabe que o país não desvaloriza a sua moeda há algum tempo.

 

Sim, o yuan chinês registou recentemente uma desvalorização face ao dólar, mas não tão significativa como o iene japonês, o euro ou a libra esterlina – e essas desvalorizações foram conduzidas pela confiança relativa na economia norte-americana. Em qualquer caso, a China tem uma política de taxa de câmbio que leva em conta o comércio e não assenta em manter o yuan em algum nível em relação ao dólar.

 

Em vez de acusar a China de prejudicar a competitividade das empresas norte-americanas, Trump devia estar focado numa estratégia genuína pró-crescimento. Tal estratégia poderia seguir o modelo britânico "northern powerhouse" (central de energia do norte numa tradução literal) – que ajudei a criar enquanto membro do Governo – que está centrado em revitalizar as economias do antigo centro nevrálgico da produção britânica.

 

Londres é a única cidade no Reino Unido que está na lista das 50 principais cidades mundiais. Isto é importante num mundo onde, durante os últimos 20 anos, as cidades foram responsáveis por mais de 60% do crescimento económico, expansão da riqueza e melhorias nos padrões de vida. Individualmente, as cidades inglesas mais pequenas, do norte, não podem realmente competir com isso.

 

Mas, associando-se a cidades maiores – incluindo Manchester, Sheffield, Leeds e Liverpool – o norte pode tornar-se mais unificado, com sete milhões de pessoas a trabalharem para uma economia regional única. E, sim, as distâncias entre Manchester, Leeds, Liverpool e Sheffield são menores que as distâncias entre as linhas Central, District e Piccadilly, do metro de Londres. Com sistemas de transportes acessíveis e de última geração, parece claro que estas cidades podem tirar partido dos benefícios dos aglomerados urbanos.

 

Claro que as cidades do norte de Inglaterra têm orgulho na sua história, que é única, e querem manter o seu sentido individual de identidade. Nada disto lhes será retirado. Apesar de ser compreensível que algumas pessoas vejam esta estratégia como uma plataforma para enfatizar a sua própria superioridade, isto não ajuda. E não apenas porque faz com que alguns decisores políticos do Governo central duvidem da relevância do projecto. Porquê investir tanto nestas cidades, quando há tantas áreas do país que estão também a enfrentar uma situação difícil? A única resposta é precisamente a oportunidade para colher os benefícios da integração.

 

Felizmente, e apesar de algumas dúvidas, o Governo britânico anunciou que vão ser desenvolvidos esforços para arrancar com algumas das necessárias ligações ao nível dos transportes, com o objectivo de encurtar a viagem entre Leeds e Manchester para 30 minutos. Mas outros elementos do plano "northern powerhouse" são igualmente importantes, em especial a devolução de importantes poderes de decisão – e alguns poderes em relação a gastos e receitas – às cidades dando em troca a possibilidade de eleger presidentes de câmara (algo que o Reino Unido pode aprender com os Estados Unidos). Afinal, Inglaterra é provavelmente a economia mais politicamente centralizada da OCDE – uma realidade que provavelmente contribui para os seus profundos desequilíbrios regionais.

 

Além da devolução destes poderes de decisão e dos transportes, o norte de Inglaterra precisa de melhorar de forma drástica o nível educacional e as competências da sua força laboral, de forma a atrair e a reter empresas altamente tecnológicas. Os planos para replicar algumas das melhorias notáveis que levaram ao sucesso escolar de Londres e do sudeste de Inglaterra dos últimos 20 anos são ambiciosos mas exequíveis.

 

A realidade é que, com uma maior autoridade para tomar decisões, mais ligações e competências, as cidades do norte de Inglaterra podem tornar-se mais dinâmicas e reverter potencialmente décadas de um declínio económico relativo. De facto, arrisco-me a prever que este projecto, que já atraiu a atenção de investidores locais e estrangeiros, vai ser uma das políticas económicas estruturais mais importantes do Reino Unido durante os próximos anos. É por isso que é crítico que os líderes britânicos continuem a desenvolvê-la.

 

A estratégia "northern powerhouse" pode dar lições valiosas a outros países. A China já está a perseguir uma estratégia de desenvolvimento regional semelhante, com o objectivo de revitalizar o seu velho cinturão industrial do norte e, por conseguinte, retirar alguma pressão das suas cidades costeiras ultra dinâmicas. Os Estados Unidos deviam seguir o exemplo e desenvolver um plano para revitalizar a zona chamada de Rust Belt, que foi importante para a vitória de Trump.

 

Um outro benefício desta abordagem poderia ser incitar a "inveja pela competitividade" em outras regiões que enfrentam dificuldades. Foi isso que aconteceu no Reino Unido, com o progresso no norte de Inglaterra a levar alguns a reivindicar, por exemplo, uma "máquina na região de Midlands", uma outra grande área urbana do Reino Unido fora de Londres e que tem cidades muito próximas umas das outras.

 

Claro que os Estados Unidos são muito maiores do que Inglaterra e as antigas cidades industriais estão muito mais longe umas das outras. Mas algumas das ideias que animaram o norte podem enriquecer de forma considerável os planos económicos de Trump. Dado que uma infra-estrutura de investimento é um elemento fundamental na sua agenda, e a devolução de poderes aos estados é algo popular entre os republicanos, certamente parece haver espaço para esta abordagem.

 

Jim O’Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management, é professor honorário de Economia na Universidade de Manchester e presidente da Review of Antimicrobial Resistance do governo britânico.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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