Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 02 de novembro de 2017 às 20:28

Não aproveitar a madeira ardida é perder duas vezes 

Nos casos em que as árvores são demasiado pequenas, ou em que as propriedades já arderam mais do que uma vez, muitos já nem se dão ao trabalho de mandar cortar as árvores. Este cenário, o do proprietário que não acredita e não limpa, é o pior e está longe de ser raro.

Para onde vai a madeira ardida nos incêndios? Para todo o lado. Está no papel que usamos para ler, dentro dos móveis, nas portas e prateleiras de aglomerado que compramos nas grandes superfícies, nos barrotes e ripas que servem para construção, nas paletes que transportam todos os produtos que vemos nas lojas, na energia que fábricas e famílias gastam.

 

A madeira sinistrada entra no circuito industrial da madeira verde porque, em muitos casos, mantém intacto (ou quase) o seu valor técnico e comercial. Em árvores com diâmetro maior é frequente as chamas não chegarem ao lenho. No vetusto pinhal de Leiria, por exemplo, a madeira está "impecável" depois do incêndio de 15 de Outubro - que alastrou rapidamente pelas copas e queimou a casca das árvores - ouvi há dias de um perito florestal.

 

O facto de esta madeira manter o valor, não significa que mantenha o preço. Este é um mercado tipicamente regional - a madeira é cara de transportar - e um incêndio grande como o de Pedrógão, por exemplo, cria um desequilíbrio entre oferta e procura. Se estivermos a falar de um ano sem precedentes na área ardida - como este em que ardeu o equivalente a todo o distrito de Viseu -, esse desequilíbrio aumenta.

 

A fraca relação dos pequenos proprietários com os seus terrenos também ajuda ao esmagamento dos preços. É comum nem irem à propriedade com o madeireiro - a peça fulcral do ciclo, que liga a madeira à cadeia industrial - e aceitarem o primeiro preço que lhes propõem. Nos casos em que as árvores são demasiado pequenas, ou em que as propriedades já arderam mais do que uma vez, muitos já nem se dão ao trabalho de mandar cortar as árvores. Este cenário, o do proprietário que não acredita e não limpa, é o pior e está longe de ser raro.

 

A utilização desta madeira gera críticas frequentes e há várias petições públicas a favor da sua proibição. Em alguns elos da indústria detectei, quando escrevi há dias para a Sábado sobre o assunto, uma certa reserva em admitir que se usa esta madeira. Parte da opinião pública condena o uso de madeira queimada numa tragédia e há quem pense que os madeireiros ou outros participantes na indústria são responsáveis pelos fogos.

 

O madeireiro incendiário é uma possibilidade, mas não parece a principal num mercado regional e em que a um ano bom a cortar madeira queimada se seguem vários sem madeira para cortar (o fogo posto não é, por outro lado, a principal fonte de ignições). Mais certo é olhar para o défice anual de madeira em Portugal - antes dos incêndios, e só no pinho, cerca de 43% das necessidades da indústria estavam por satisfazer - e concluir que é errado apelar à não utilização de madeira ardida, e boa, enquanto se corta madeira verde e escassa.

 

A política pública devia interessar-se mais pelo circuito da madeira queimada para perceber se há padrões que saltem à vista mas, sobretudo, para analisar se quem tem mais força para disputar essa madeira é quem mais a valoriza. No caso do pinho, a indústria dos pellets, que paga muito menos do que as serrações (as que mais valorizam a madeira ardida, entre 45 e 50 euros por tonelada) e recebe incentivos fiscais e municipais, talvez valha a pena repensar esses incentivos.

 

E tendo em conta que o pinho deve ser cortado rapidamente, por causa do risco de pragas e de perda de água, o Governo e as câmaras deveriam assumir também como seu o desafio de criar condições para valorizar o melhor possível a enorme quantidade de madeira ardida este ano - e poupar a verde, crucial para o futuro de uma indústria que vale 12% das exportações e emprega dezenas de milhares de pessoas.

 

Jornalista da revista Sábado

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