Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 31 de janeiro de 2017 às 20:10

Não é a oposição que tem de salvar o Governo de si próprio

Em 2016, este foi o Governo das reversões. Em 2017, pela amostra, também o poderá ser. Com uma diferença: em 2016, o Governo das esquerdas unidas reverteu as políticas do anterior Governo; em 2017, as esquerdas desunidas reverterão as políticas do actual.

O acordo de concertação social já foi arrasado por iniciativa do PCP, que entretanto ameaçou tratar com igual carinho a entrega da Carris à gestão exclusiva ao Município de Lisboa. Que mais aí virá?

 

Já aqui escrevi que o PCP e o BE, não sendo nem governo nem oposição, estão numa situação aparentemente insustentável a longo prazo. Esta indecisão, na qual é possível sobreviver durante algum tempo, terá mais tarde de ser tratada com pinças, quando a proximidade de eleições exigir maior clareza de posições. Por mais talento político que haja para a ambiguidade, essas posições hão-de ser definidas tendo por referência o Governo: ou se é a favor ou se é contra.

 

Dentro do quadro da "geringonça", só uma opção salvaguarda a governabilidade do país - a entrada do PCP e do BE no Executivo. Uma escolha definitiva pela oposição mataria o Governo, por definição. Mas a insistência na ambiguidade, com a esquerda a ter de mostrar constantemente as garras, não é uma solução muito melhor, porque transforma a governação num exercício impossível e o Conselho de Ministros num órgão inútil.

 

Vejamos o que temos, de momento, depois de esgotada e arquivada a agenda das "posições conjuntas": um crescimento económico medíocre; que ainda não superou o melhor da anterior maioria; um absoluto torpor reformista; os juros da dívida a disparar; os serviços públicos em agonia; um sector bancário ainda à espera do lendário espírito resoluto do primeiro-ministro (na administração da Caixa, no Novo Banco, na solução para o crédito malparado).

 

A acrescer a tudo isto, quando precisávamos de um Governo forte temos agora o PCP e o Bloco empenhados em mostrar "o Governo do PS" em toda a sua esplendorosa pequenez, com o apoio de apenas um terço dos deputados.

 

Perante isto, o que faz António Costa? Embevecido pela sua fama de príncipe da política, tenta o cinismo supremo, a "pièce de résistance" do seu génio, de atrelar à governação a direita que antes derrubou.

 

O problema é que, para a direita, todos os incentivos são em sentido contrário. O primeiro é táctico. Sempre que falta apoio parlamentar ao Governo, fica exposta a incompetência do PS em negociar soluções políticas. No curto prazo, dar a mão ao PS seria esconder essa incompetência.

 

O segundo incentivo é estratégico. Quanto mais se demonstrar que está dependente do PCP e do BE mais caro o PS pagará por futuros entendimentos com esses partidos. Ou seja, mais para a esquerda será o PS arrastado. No médio prazo, esse escancarar do centro é benéfico para a direita.

 

O terceiro e último incentivo - o mais importante - é de princípio. Já não é a primeira vez que o refiro. António Costa jurou ter "uma alternativa estável, coerente e duradoura". Não se tratou de uma mera carta de conforto aos portugueses: foi a própria justificação da sua legitimidade. Ora, sempre que não tem a esquerda consigo, a alternativa de Costa não é estável, coerente nem duradoura. E sempre que precisar da direita, então a alternativa nem sequer alternativa é. Por isso, a oposição não tem legitimidade para a salvar o Governo de si próprio.  

 

Advogado

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mais votado surpreso 01.02.2017

Pronto! Você já garantiu os vómitos da escória de "esquerda".A ver se chega ao recode do Camilo Lourenço

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Anónimo 03.02.2017

O que fica realmente para história é a incoerência política do psd mesmo para com o seu eleitorado base.... btw passado um dia o costa ja tinha outra soluçao para a concertação social com o apoio parlamentar de toda a esquerda, onde é que está a fragilidade política c 2 orçamentos já aprovados?...

Concordo... 01.02.2017

Simples, prático e evidente...

Demagogos Populistas Frouxos 01.02.2017

O problema desta esquerda é que ela esgota-se nas reversões e reposições. É que, não tendo capacidade intelectual para mais nada, e limitada por uma ideologia ou "culto" à despesa de Estado, a tendencia será sempre de piorar a situação economica de Portugal fomentando a descredibilização no exterior

5640533 01.02.2017

Concordo completamente. So que o PSD nao e melhor.

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