Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 06 de Novembro de 2016 às 17:15

Não é o que és, é o que fazes

Na qualidade do trabalho profissional o que assenta no talento natural e o que assenta mestria que vem da prática? O que se sabe hoje sobre a performance de topo? Como ser um profissional excepcional? É mesmo necessário trabalho, trabalho e mais trabalho? Sim, mas não chega…

A investigação destes últimos anos mostra, por um lado, que ser um profissional de topo não é possível sem anos de prática dedicada, focada em aprender, melhorar e inovar. Por outro lado, essa mesma investigação indica também que a performance verdadeiramente excepcional não fica só a dever-se à prática dedicada, esforçada em melhorar e inovar, tecnicamente chamada prática deliberada. Há algo mais.

 

A aprendizagem, a existência de feedback e a melhoria no dia-a-dia são necessárias para atingir um alto desempenho, mas a sua relevância varia de actividade para actividade. Na música ou no xadrez, por exemplo, a prática deliberada parece ser mais relevante do que na liderança ou no empreendedorismo.

 

Outro aspecto importante que o estudo do desempenho de topo tem vindo a apontar é que quanto maior é o sucesso menos parece ser explicado pela prática deliberada, pelo trabalho dedicado e pela melhoria contínua. No 1 ou 2 por cento do topo, seja na alta competição, na música ou nas empresas, todos os profissionais praticam intensamente, inovam e melhoram. Nesses níveis o que parece, de novo, diferenciar os profissionais são diferenças fisiológicas, influenciadas pela genética, bem como a personalidade, a vontade, e o tempo efectivamente afecto à competição com os outros.

 

A inclinação de cada um, os gostos e habilidades, desde a infância à idade adulta - por exemplo, mais jeito para actividades em grupo ou individuais, a curiosidade, a vontade de liderar, a facilidade no raciocínio lógico ou no relacionamento pessoal -, são características que podem pesar no sucesso que podemos vir a ter. E podem manifestar-se decisivamente quando competimos no topo dos topos.

 

O natural, o talento à nascença, o que fazemos bem e gostamos de fazer, com prática dedicada e esforço, pode de facto transformar-se em capacidades profissionais relevantes. Mas, diz Angela Duckworth na investigação publicada na obra Grit, a verdadeira excepcionalidade, o topo do topo só se atinge quando essas capacidades, que nos fazem ser um profissional muito bom, são sujeitas a novos esforços, a nova prática intensa, a melhorias e inovações. E aí, mais uma vez, a vontade, a confiança e a determinação são o fazem a diferença.

 

Não é por isso o que somos ou deixamos de ser que é importante. O que faz a diferença é o que fizemos, o que fazemos e o que vamos fazer. O talento natural pode fazer bons profissionais, mas não faz profissionais excepcionais. A prática deliberada é importante, mas não chega. A determinação e a vontade fazem sempre parte do sucesso.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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