Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 28 de Novembro de 2016 às 19:35

Não é optimismo, é resignação 

O crescimento homólogo de 0,8% no terceiro trimestre, que aponta para um crescimento de 1,2% em 2016, foi recebido com aplauso. É natural que o Governo diga que estamos no bom caminho, que fale em optimismo.

Mas a verdade é que estamos perante um crescimento muito baixo, mesmo à luz das nossas circunstâncias.

 

E passo já a explicar-me, para que se perceba que sustento esta apreciação em factos, e não em ressabiamentos, e que me motiva uma ambição, não o pessimismo.

 

Em primeiro lugar, definindo a taxa de crescimento de que precisamos.

 

Há 16 anos que a nossa economia está a divergir da média europeia. Entre 2000 e 2007, tivemos a segunda pior taxa de crescimento média, ficando muito atrás das economias do Báltico ou da Europa Central. Para apanhar a média, precisamos de crescimentos de 2,5-3% ao ano (que o Plano Centeno prometia).

 

Este resultado de 1,2%, a somar às previsões actuais, mostra que a divergência face à Europa vai continuar a agravar-se. Não estamos a avançar, estamos a ficar para trás. Devíamos estar optimistas porquê?

 

Em segundo lugar, contextualizando o crescimento.

 

Nenhum dos países europeus com PIB per capita semelhante ao nosso está com crescimento tão anémico. Todas as economias menos desenvolvidas da Europa crescem na casa dos 2,5-3%. Até na Grécia o FMI estima um potencial de crescimento de longo prazo superior. Os nossos principais parceiros comerciais crescem ao ritmo mais alto da década. O BCE reforçou o programa de "quantitative easing".

 

Este resultado, a esta luz, mostra que não há nada de normal nesta taxa de crescimento tão baixa. Devíamos estar optimistas porquê? 

 

Em terceiro lugar, estabelecendo o ponto de comparação.

 

Um resgate não pode ser ponto de comparação para este crescimento porque estamos perante realidades muito distintas. Como comparar anos de resgate, em que o Governo teve de cortar 8% ao défice para se aproximar do fim do procedimento por défices excessivos, com anos de maior liberdade, em que este Governo apenas precisa de cortar 0,5% para cumprir as metas?

 

Este crescimento só é visto de forma positiva por comparação com os anos de resgate. Devíamos estar optimistas porquê?

 

Em quarto lugar, registando uma tendência.

 

Este crescimento fica aquém do prometido pelo PS e aquém do 1,5% conseguido pelo Governo anterior. Quem disse que queria ser Governo para Portugal crescer mais do que "uns míseros 1,5%" foi o PS. Quem prometeu crescer 2,4% foi o PS (já agora, por que razão apagou o PS o Plano Centeno do seu website?). E nada disso o PS conseguiu.

 

Estamos a crescer menos. Devíamos estar optimistas porquê?

 

Concluindo, Portugal está a crescer menos do que o ano passado, está a crescer menos do que economias semelhantes à sua e está a agravar a sua divergência com a Europa. Devíamos estar optimistas porquê?

 

Quem está optimista num quadro destes é porque é resignado.

 

Só a resignação justifica o entusiasmo com este crescimento, aceitando que é normal termos um crescimento na casa dos 1-1,5% durante 20 anos, divergindo cada vez mais da Europa. Se é para aí que estas políticas nos levam, como podemos estar optimistas?

 

Estamos a precisar de mais do que resignação. De um Governo que não ponha em causa a nossa economia para calar sindicatos e esquerdas, que não confunda paz social e estabilidade com distribuição de benesses, que tenha a ambição de não depender de quem defende modelos que nunca resultaram em parte alguma. Que nos ponha a crescer.

 

Nada tenho contra o optimismo. Mas tenho muito contra a resignação.

 

Advogado

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mais votado Anónimo Há 1 semana

A verdade é que quando entrámos em bancarrota e fomos pedir ajuda ao FMI as contas eram simples. Para a dívida pública voltar a estar nos 60% teríamos de crescer a 3% ao ano durante 30 anos. Como vemos, essas metas de crescimento parecem impossíveis de atingir com esta gente a governar (de todos os grandes partidos). O que nos vendem agora é banha de cobra, atiram areia para os olhos e vivemos na ilusão. Porque a verdade é que a última bancarrota foi talvez a pior da nossa história moderna e deixou-nos no tapete. E sendo assim, este artigo vem relembrar isso. Mas ainda existirão alguns a criticar o autor em vez de criticar a forma como chegámos aqui

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Anónimo Há 1 semana

O artigo começa com um erro. O crescimento de 0.8% não é em termos homólogo mas sim em cadeia. O crescimento em termos homólogos foi de 1.6% ( segundo a estimativa rápida do INE que amanhã fará o segundo reporte).

Mr.Tuga Há 1 semana

EXCELENTE!

E temos o petróleo e as taxas de juro HISTORICAMENTE BAIXAS...

OBAMA MASSAMÁ Há 1 semana

Este rapazinho nunca trabalhou na vida, não tem experiência em nada meteram-no como secretário de estado sem qualquer tipo de qualificação na área o turismo subiu graças às primaveras árabes, no Egipto, Tunísia, síria etc, acredito que o Negocias aceitam os artigos destes Zé zinhos porque devem ser grátis.

luis Há 1 semana

Portugal saiu duma ditadura sem infrastruras nenhumas e o seu crescimento deveu-se ao betão armado. Infelizmente nao soubemos mudar para industria assente em empresas privadas. os nossos empresários preferiram ficar sempre na asa do estado em PPP's e obras publicas. agora queixamos-nos disso. é pena

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