Francisco Seixas da Costa
Francisco Seixas da Costa 27 de janeiro de 2017 às 00:01

Não estamos com gente disso!

Esqueçamos por um instante Donald Trump. Falemos dos Estados Unidos da América que aí estão e dos novos desafios que eles colocam à Europa.

A América amiga (e historicamente promotora) da unidade europeia desapareceu, por ora, do horizonte. Todos nos recordamos do tempo em que Washington era o grande defensor do alargamento da União aos países que se haviam libertado da tutela soviética - e até da Turquia. Agora, temos perante nós uma administração que se regozija com o Brexit, que pretende mesmo que o exemplo floresça e que acaba de designar como representante diplomático em Bruxelas alguém que acha que o euro acabará em 18 meses. No topo da cereja, temos o abandono frontal do TTIP, numa colagem aos inimigos do comércio livre e a quantos favorecem uma nova onda protecionista, lida como a defesa possível face aos malefícios da globalização.

 

Um outro desafio não deixa de ser também altamente relevante. A Europa mostrou um evidente seguidismo face à anterior administração americana no que respeita ao seu relacionamento com a Rússia. Foi Washington quem mais entusiasmou os seus aliados europeus - excitando mesmo o sentimento anti-Moscovo da "nova Europa" traumatizada pela Guerra Fria - na irresponsável aventura de forçar uma mudança na Ucrânia, onde conseguiu fazer depor um Presidente livremente eleito, apenas e só porque era pró-russo e não facilitava um desequilíbrio estratégico do país em favor do Ocidente. A Europa deixou-se arrastar nesse aventureirismo e, com isso, suscitou uma reação estratégica por parte de Moscovo que, para já, fez perder a Crimeia à Ucrânia. Em contra-retaliação, a União Europeia decretou sanções económicas contra a Rússia, que vieram agravar ainda mais a recuperação dos seus setores que, no pós-Guerra Fria, tinham vindo a conquistar importantes segmentos de mercado russo.

 

Ora, neste novo contexto, a América parece, pelo menos nos primeiros tempos, privilegiar um diálogo estratégico com Moscovo, visivelmente com vista a desengajar-se, tão cedo quanto possível, de responsabilidades militares no Médio Oriente, facilitando a emergência de um tandem Moscovo-Ancara para combate simultâneo ao Daesh e aos inimigos do poder sírio. Como compensação estratégica, Washington reforça as "mãos livres" de Israel, numa estratégia de contenção potencial do Irão, quiçá complementado, a prazo, com a colocação do eixo sunita como um dos novos elementos de poder regional.

 

Onde fica a Europa, neste puzzle? Para já, em sítio nenhum, a ler bem as posições de Washington. Uma coisa é certa : este "namoro" americano com Moscovo é desconcertante para o investimento feito pela União Europeia no caso ucraniano, e basta ler as parcas reações desse lado da Europa para o sentir.

 

E chegamos a um outro e decisivo desafio. Poder europeu desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA criaram a NATO como escudo de defesa desta parte do mundo face à então ameaça soviética. Ganharam, entretanto, a Guerra Fria e, simultaneamente, impuseram o alargamento da organização, criando uma confortável "buffer zone" face a Moscovo, em particular para um país como a Alemanha. No seu afã de afirmação hegemónica, nunca tendo conseguido gizar um "modus vivendi" são com a nova Rússia, os americanos levaram a NATO longe demais, cederam às pretensões quase revanchistas dos recém-convertidos e foram criando um "build-up" de tensão militar que roça a irresponsabilidade, em particular sabendo-se que, do outro lado, está um poder autoritário, sob desespero económico, que assenta toda a sua nostalgia de grande potência no seu arsenal militar.

 

Aqui chegados, o que é que ouvimos da nova América? Que a NATO está obsoleta, que cada um deve pagar a sua defesa e que os EUA não estão dispostos a gastar o seu dinheiro na defesa dos outros. Seria necessária uma imaginação muito forte para conseguir desenhar um discurso que pudesse fazer sorrir mais Moscovo.

 

Será a Europa capaz de aproveitar este contexto desfavorável para ganhar alguma autonomia estratégica, reforçando-se como poder autónomo, no desenho das suas opções próprias? Como dizia um velho amigo meu, quando descria na capacidade dos outros para qualquer coisa, "não estamos com gente disso". É, pelo menos, o que eu penso.

 

Embaixador

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
5640533 29.01.2017

O tal presidente democraticamente eleito era um corrupto que metia nojo a toda a gente. informe-se melhor.

Ciifrão 28.01.2017

A Europa precisa da América, o contrário também é verdade. A China sem a Europa e a América vende o que fabrica a quem? As coisas não são tão simples como as pintam, mesmo para os portugueses agora habituados a comprar barato. Com protecionismo talvez alguns se governem melhor, a maioria vai viver pior.

mariocms 27.01.2017

Quero dizer que os grupos econômicos que operam em Portugal importam quase tudo, levaram milhares de empresas à falência causando dezenas de milhares desempregados e no final levam o dinheiro para paraísos fiscais.

josé 27.01.2017

mário: explique-se... não percebi o que quis dizer?

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