João Silva Lopes
João Silva Lopes 26 de junho de 2017 às 20:15

Não foi só Aznar

Passados poucos dias surgiram dúvidas quanto à verdadeira origem e quanto à influência na propagação do incêndio da falta de coordenação entre a GNR, bombeiros e Protecção Civil, da subavaliação dos riscos (já admitida pelo Governo) e das falhas no SIRESP.

José María Aznar, primeiro-ministro espanhol, confrontado ao princípio da tarde do dia 11 de Março de 2004 sobre o atentado daquela manhã na estação de comboios da Atocha, apressou-se a responsabilizar a ETA, sem cuidar, previamente, de aferir quais os verdadeiros responsáveis e as razões da falha de segurança que levaram a não antecipar o atentado.

 

Poucos dias depois, foi identificada a Al Qaeda como responsável pelo atentado.

 

Os mais altos responsáveis políticos portugueses, confrontados com a catástrofe ocorrida nos concelhos de Pedrogão Grande, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, Góis e Pampilhosa da Serra apressaram-se a identificar como causa responsável pelo incêndio uma "trovoada seca" e como razões para a sua propagação descontrolada, as condições climatéricas adversas de temperaturas altas e ventos fortes, sem cuidar previamente de determinar quais as verdadeiras causas e os motivos da rápida propagação.

 

Passados poucos dias surgiram dúvidas quanto à verdadeira origem e quanto à influência na propagação do incêndio da falta de coordenação entre a GNR, bombeiros e Protecção Civil, da subavaliação dos riscos (já admitida pelo Governo) e das falhas no SIRESP.

 

Embora publicado sob pseudónimo, o que se lamenta por violar as mais elementares regras deontológicas, será que é por este aparente paralelismo factual e tendo assistido aos acontecimentos à distância que o periódico espanhol El Mundo profetizou que este poderá ser um ponto de viragem na forma como os portugueses olham para este Governo?

 

Todas as dúvidas entretanto suscitadas criaram um clima de insegurança potenciado pela dimensão da catástrofe com um elevado número de vítimas civis, incluindo crianças. Como poderemos estar daqui para a frente seguros que a estrada para a qual as autoridades nos mandam com os nossos filhos é realmente segura?

 

Quando são publicamente divulgadas as questões colocadas ao IPMA, à ANPC e à GNR, bem como a sua resposta sem filtro e de forma desfasada, condena-se, à partida, a procura da verdade ao insucesso e afunilam-se responsabilidades, desviando-as da hierarquia de comando e do poder político.

 

Estas questões deveriam ter sido feitas em separado, de forma reservada a cada uma das entidades de molde a que cada uma não tivesse conhecimento das outras questões nem da respectiva resposta. E deveria permitir o contraditório - o que não é possível com a sua divulgação pública imediata.

 

Só um inquérito imparcial, promovido por uma comissão técnica independente e alargada, fora do modelo das comissões parlamentares e não limitada apenas às conclusões de um perito à semelhança de parecer jurídico, permitirá entender o que se passou e responder a todas as dúvidas que subsistem.

 

A memória dos 64 portugueses e portuguesas que faleceram a isso obriga.

 

Para que, após o apuramento das responsabilidades, as consequências não se reflictam em quem se limitou a cumprir ordens ou actuou na sua falta.

 

E para que não fique para a história que foi apenas azar as vítimas estarem naquele sítio às horas erradas...

 

PS. Sendo uma questão pessoal, optei por não fazer esta referência no corpo do artigo mas não posso deixar de prestar a minha sentida homenagem às gentes valentes e corajosas da Freguesia de Campelo, Figueiró dos Vinhos, terra dos meus avós maternos e paternos.

 

Advogado

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comentários mais recentes
Punitor 26.06.2017

É evidente Sr Advogado que as responsabilidades, ou a falta delas, serão apuradas. A justiça não se faz num dia, nem em dois, nem numa semana, nem num mês e, provavelmente, nem num ano...