André Macedo
André Macedo 29 de outubro de 2017 às 20:10

Não importa nada

Há um terrível e doloroso espetáculo medieval que acontece vária vezes por semana no centro de Lisboa - talvez também noutros lados do país - e ninguém se espanta publicamente.

Este artigo está acessível, nas primeiras horas, apenas para assinantes do Negócios Primeiro.



Não se ouve uma só pessoa recriminando o que acontece ou sequer uma voz de apoio àquelas pessoas sujeitas à mais absoluta indiferença. Nenhum dos candidatos falou do assunto na campanha autárquica, o tema não existe para este e outros governos e os lisboetas encaram o tema - esta imensa vergonha -, como fazendo parte da paisagem urbana, como em tempos acontecia com o Casal Ventoso ou os bairros de lata que marcavam a cidade.

Passamos por ali, talvez olhemos ou não para aquela fila humilhante de gente, crianças, velhos e novos, ou então desviamos o olhar à espera que o sinal abra e tudo se torne outra vez invisível, engolido pelo trânsito e o destino com hora marcada. Talvez haja até quem ache, sem verdadeiramente pensar, que o que acontece quase todos os dias à frente da penitenciária de Lisboa é merecido, a consequência natural de quem cometeu alguma espécie de crime e, portanto, não tem senão que sujeitar a família inteira a este circo, como se a humilhação pública fizesse parte intrínseca da expiação da culpa.

Obrigar quem visita um amigo ou irmão que está preso - ou então detido - a esperar em fila, sempre em pé, faça chuva ou faça sol, forçando-o a encostar-se ao muro exterior da penitenciária para recuperar as forças, arrastando a seguir os sacos com mantimentos até à minúscula porta de entrada, não tem justificação possível. Imagino que não haja espaço suficiente dentro da prisão, que esteja tudo já de tal forma atamancado e em condições miseráveis que nem sequer sobrem alguns poucos metros quadrados para abrir uma normal sala de espera grande o suficiente para acolher bancos ou até mesas, imagine-se o luxo, alguns brinquedos para as crianças que têm de sujeitar-se a este difícil momento - talvez já incompreensivelmente natural para elas.

Mas não é difícil perceber a violência desta rotina para as crianças e para os adolescentes, o efeito perturbador desta arrogância do Estado, esta anacrónica e silenciosa forma de violência sobre as pessoas, o crime de indiferença que todos cometemos ao aceitar a arrogância e o destrate públicos.

O que os incêndios devastadores deste verão e outono vieram confirmar não foi apenas a nossa evidente e secular desorganização territorial, o abandono do interior, a deseconomia com que os recursos naturais e humanos do país são geridos e desbaratados. O que a desgraça expôs foi a cegueira política e cívica nacional. O abandono dos mais frágeis, a incapacidade para olharmos para os problemas de frente, dividindo as responsabilidades pelos políticos que não sabem e não querem saber e nós, as pessoas, a chamada sociedade civil, que também se revela incapaz de olhar para além do próprio umbigo, exceto quando as labaredas nos entram televisão adentro, e apenas para culpar os outros.

Talvez este orçamento seja mesmo o mais à esquerda dos últimos 30 anos, o que terá vantagens e perigos a que hoje eufemisticamente chamamos riscos. Mas o que me incomoda é a facilidade com que descartamos os problemas coletivos que nos diminuem como comunidade. Não é resignação, é indiferença. Preferimos a mediática distração provocada pelo arrufo Marcelo-Costa, gastamos horas a interpretar e conjecturar o que diz um e faz o outro, o que é genuíno e o que é encenação, mas somos incapazes de abrir os olhos e ver o que não carece de tradução, apenas de um módico de atenção. Há quem lhe chame também humanidade. Não aceitar o anormal normal, combater a inércia, levantar a voz contra a indiferença.   

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Saramiug Há 2 semanas

O meu aplauso por esta crónica. Os políticos que têm vindo a dirigir a Câmara Municipal de Lisboa pouco ou nada ligam para as filas intermináveis que se formam junto a organismos públicos, já para não falar na pouca vergonha do que se passa nos bairros populares (Alfama, Mouraria, Madragoa, etc.) e nas noites de Lisboa, principalmente no Bairro Alto. estes munícipes estão abandonados à sua sorte.

pub