Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 23 de outubro de 2017 às 10:47

Negociar é muito mais do que escolher acções

Foi mais uma semana muito tranquila na Bolsa portuguesa, num mercado que continua sem mostrar fraqueza.
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Tenho escrito muito sobre o actual momento da Bolsa portuguesa, por isso decidi hoje escrever um artigo mais reflexivo sobre os mercados e a nossa forma de estar perante eles. Uns prefeririam que escrevesse sobre as melhores acções da Bolsa portuguesa mas, para mim, conseguir dominar o outro lado dos mercados é a receita principal para o sucesso nesta verdadeira selva recheada de tubarões e peixinhos, elefantes e ratos, leões e patos.

Não lutemos contra o mercado, ele não faz a menor ideia se estamos a ganhar ou a perder.
Muitos investidores negoceiam como se estivessem numa revolta constante quando estão a perder, como se o mercado fosse o seu adversário e os estivesse a enganar. O mercado não tem sentimentos, ele é como é por natureza e enfrentá-lo como se fosse um adversário é, além de um fenómeno alucinatório, um erro que muitos cometem. Sobretudo, respeitemo-lo porque, por mais sintonizados que estejamos com ele, é sempre imprevisível.

É necessário reavaliarmos as nossas posições.
Muitas das vezes, os investidores ficam agarrados às suas posições, de uma forma quase cega, especialmente quando estão a perder e se recusam a vender com menos-valias. Há uma pergunta básica que devemos fazer sempre a nós próprios em relação a cada posição que tenhamos: "Se não tivesse nenhuma posição agora, seria esta que abriria? Abriria outra? Ou não abriria nenhuma?". Ao invés, a maior parte dos investidores pensa: "agora que estou a perder tanto, não vou vender." Reavaliemos as nossas posições, com um sentido crítico. A nossa carteira agradece.

O vício ocorre quando o desejo de negociar é superior ao desejo de ganhar dinheiro.
Todos os investidores acreditam estar na Bolsa para ganhar dinheiro mas, na realidade, muitos estão apenas pela adrenalina. Quantas vezes já negociaram sem que as probabilidades e a razão aconselhassem a isso mas apenas pela irresistível atracção de negociar? Como se ficar de braços cruzados à espera da oportunidade fosse demasiado aborrecido. Jess Livermore afirmava "Depois de passar muitos anos em Wall Street, ganhando e perdendo milhões de dólares, eu quero-vos dizer o seguinte: Nunca foram os meus pensamentos que me fizeram ganhar as grandes fortunas. Foi sempre quando eu estive sem negociar."

Devemos alternar a dimensão das nossas posições em função das nossas convicções.
Se temos muita convicção num negócio, devemos ter uma posição forte. Se temos uma convicção média, a dimensão da posição deve ser mais reduzida. E quando temos pouca convicção, nem sequer devemos abrir essa posição.

O que preocupa um "trader" profissional não é perder dinheiro, mas sim perder dinheiro, fazendo coisas estúpidas.
Ter negócios perdedores, nem sempre significa negociar mal - faz parte do percurso normal em Bolsa. Mas perder dinheiro, por se ter negociado fora da lógica ou do seu método, faz doer a alma de qualquer investidor.

Se negoceia um mercado exclusivamente em função de outro, mude o seu foco.
Vejo muitos investidores dizerem que vão comprar ou vender na Bolsa portuguesa porque acham que as Bolsas internacionais vão fazer isto ou aquilo. Se acreditamos nas nossas análises noutros mercados, negociemos neles directamente. Não o fazer faz com que, além do risco de errarmos na análise sobre o outro mercado, possamos errar na influência dele sobre o nosso.

É fácil ganhar dinheiro em Bolsa, mas é muito difícil fazê-lo consistentemente.
Um dos problemas é que, quem começa a negociar num "Bull Market", rapidamente ganha dinheiro e dá uma sensação de facilidade demasiado perigosa. E normalmente são as agruras do próximo "Bear Market" que fazem com que o investidor perca tudo o que ganhou e ainda mais algum capital. Ganhar em Bolsa é difícil. E quem diz o contrário ou tem pouca experiência ou quer enganar alguém. Não é vergonha admitir que negociar é difícil. O que é vergonha é não se ter consciência disso.

Quando a esperança e a fé começam a sustentar uma posição, fechar a posição é a única opção possível.
Quando essas palavras são frequentes na sua justificação para manter as posições abertas, é sinal que algo está errado. A esperança e a fé são palavras fortes e que movem os seres humanos mas que no mundo dos mercados são autênticas setas a indicar o precipício.

Por vezes, temos mesmo de parar de pensar na EDP, no BCP, na Amazon ou em outra qualquer acção e dedicarmos o nosso tempo a pensar como nos movemos no mercado. Errar é normal e faz parte do processo. Repetir os erros, sem sequer reflectimos no que estamos a fazer não faz sentido e é o prenúncio de mais erros e perdas. Há sempre tempo para aprendermos e melhorarmos. Mas temos que estar abertos a isso. Porque o sucesso em Bolsa depende muito mais da nossa forma de abordar os mercados do que as acções em que escolhemos estar investidos.

Temos que aprender com os erros. Afinal de contas, em Bolsa, pagámos por eles.


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