João Costa Pinto
João Costa Pinto 11 de setembro de 2017 às 18:22

Negócio bancário e financiamento – (CII)

O crédito bancário às empresas continua a contrair-se. Entre Dezembro de 2016 e Junho de 2017, caiu 2,3% – cerca de 1,8 mil milhões de euros.

1. Desde finais de 2012, a contracção foi de 25 mil milhões de euros – 24%. Em contrapartida, os fluxos de crédito às famílias têm vindo a crescer. Ao mesmo tempo que os bancos procuram fontes alternativas de proveitos. Deixando neste artigo de lado as implicações da imposição de comissões sobre contas não remuneradas – o que equivale a onerar a poupança com taxas de juro negativas –, esta evolução deve ser avaliada à luz de dois tipos de considerações: por um lado, a natureza e as características do movimento de retoma da economia e da procura de financiamento que esta está a originar; por outro, o complexo processo de reorganização e redimensionamento por que está a passar o mercado bancário e o impacto que este está a ter sobre a oferta de crédito. Neste contexto, somos levados a colocar uma questão central: a escassez de financiamento está a travar o crescimento? Estamos de facto a "viver" um período de "repressão financeira" com reflexos negativos sobre o processo de modernização do nosso "tecido produtivo", enquanto favorecemos de novo comportamentos que no passado induziram desequilíbrios estruturais – endividamento e empresas financeiras e tecnologicamente frágeis e pouco competitivas? Numa intermediação financeira de qualidade, o crédito é sobretudo concedido de modo a melhorar os níveis de produtividade, a revitalizar o "tecido produtivo", a induzir inovação e a favorecer a criação e o lançamento de novas iniciativas e projectos. Sempre que isto acontece, estabelece-se uma relação virtuosa e saudável entre os intermediários financeiros – bancos e outros operadores nos mercados financeiros – e a economia real – aforradores, consumidores, produtores e investidores – com equilíbrio entre dívida e crescimento. No quadro actual, é razoável esperar que os nossos bancos coloquem estas preocupações no centro dos seus modelos de negócio? A verdade é que tal não aconteceu mesmo no período em que o crédito bancário explodiu e cresceu em exponencial – entre 2000 e 2010 cresceu 50% e atingiu 170% do PIB – e em que, pelo contrário, alimentou os desequilíbrios que nos conduziram à troika. 


Carlos Alves e Carlos Tavares publicaram um importante trabalho em que analisam a relação entre os bancos e a economia real. Nele mostram como o crédito afluiu a sectores menos eficientes, financiando um stock de capital de baixa produtividade(*). Acresce que o crédito bancário de curto prazo favorece a reprodução de um "tecido produtivo" atomizado e pouco competitivo.

2. Mas, além do referido, o afluxo de crédito às empresas tem vindo a ser condicionado por pressões que reflectem: por um lado, a permanência de um peso excessivo de crédito malparado de empresas nos balanços dos bancos – 15% em finais de Junho; por outro, o impacto negativo da intervenção no BES sobre o crédito a empresas – independentemente das razões que lhe estiveram na origem e dos esforços do Novo Banco. Em próximos artigos, proponho-me abordar os riscos da situação actual e as oportunidades de actuação criadas por uma janela aberta por uma conjuntura favorável.
 
(*) "A Banca e a Economia Portuguesa"  
Carlos Alves e Carlos Tavares
 
Economista
Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
surpreso 11.09.2017

Cento e dois?Grande João,um livro...O crédito ás empresas não traz "felicidade"ao povo "geringonceiro" e a uma governação "abrilista"

pub