Cristina Casalinho
Nenhuma boa solução
09 Agosto 2012, 23:30 por Cristina Casalinho
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Espera-se que, no futuro, as perspectivas de crescimento melhorem, reduzindo o nível de endividamento da economia, enquanto, no médio prazo, se mantêm as empresas a funcionar e as famílias com consumo estabilizado
Cumprem-se cinco anos sobre o início de actual crise económico-financeira. Após mais de uma década de expansão do crédito, propulsionada pela constatação de estagnação de rendimentos nas economias avançadas por parte dos seus dirigentes políticos (com particular ênfase para os EUA), o esquema de promoção de crescimento económico, com características de cascata, ruiu. Com a flexibilização do acesso ao crédito, empresas que nunca veriam a luz do dia ou que não sobreviveriam ao desafio da concorrência, prevaleceram, assegurando elevados níveis de empregabilidade. Às famílias: foi possível a concretização de sonhos de aquisição de habitação própria ou de bens duradouros, sustentando uma procura dinâmica.

O crédito consubstancia-se na possibilidade de se poder dispender mais que o rendimento presente disponível. Se, durante mais de dez anos, empresas e famílias, em vários países ocidentais, absorveram recursos superiores à sua capacidade contemporânea de geração de rendimento, acumulando dívidas, no momento do reembolso, algumas hipóteses podem aventar-se. Se os rendimentos tiverem crescido ou estimar-se que cresçam, de modo que permita a liquidação da dívida hoje ou no futuro, esta poderá ser saldada ou refinanciada. Se os rendimentos tiverem estagnado, a dívida poderá ser saldada através de aumento de poupança (queda do consumo presente e futuro para compensar consumos passados superiores ao acréscimo de rendimento) ou redundar em incumprimento/falência. Em caso de generalizado aumento de poupança e falências, grassará a recessão económica.

Numa perspectiva global, o sobreendividamento de uma economia poderá ser solucionado através de: crescimento económico, inflação; renegociação/incumprimento; e repressão financeira. Presentemente, o crescimento económico afigura-se muito modesto: envelhecimento populacional, estabilidade do modelo tecnológico e da dotação de factores, entre outros. A possibilidade de indução da necessária inflação, face ao grau de endividamento das economias desenvolvidas, é reduzida em virtude da dimensão da depressão da procura e do desemprego. Em caso de incumprimento/renegociação, como a História tende a ilustrar, no caso de forte desequilíbrio entre devedores e credores, os termos do acordo orientam-se maioritariamente em favor dos credores, com eventuais perdas de soberania dos primeiros. Por outro lado, a capacidade de resistência do sector bancário (concretamente, europeu) suscita muitas interrogações. Na Europa e EUA, ensaia-se a repressão financeira. Esta alternativa foi adoptada, com sucesso, nos anos 70 e 80 no Reino Unido e nos EUA. Consiste na manutenção, pelas autoridades monetárias, de taxas de juro nominais muito reduzidas (eventualmente, taxas reais negativas e sistemas bancários nacionalizados devido a baixa rendibilidade). Desta forma, empresas, famílias, e Estados retêm a capacidade de satisfação do serviço da dívida, mesmo num ambiente de rendimentos estagnados. Espera-se que, no futuro, as perspectivas de crescimento melhorem, reduzindo o nível de endividamento da economia, enquanto, no médio prazo, se mantêm as empresas a funcionar e as famílias com consumo estabilizado, evitando uma prolongada e profunda recessão. Vive-se num limbo anestesiante, enganando a recessão. Relembre-se que este purgatório auto-infligido dura há mais de uma década no Japão.


Economista
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