Camilo Lourenço
Ninguém quer fazer sacrifícios
16 Agosto 2012, 23:30 por Camilo Lourenço | camilolourenco@gmail.com
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As recentes estatísticas da economia europeia confirmam, a nível de crescimento económico, uma divisão norte-sul: crescimento no centro e norte e recessão no sul.
E ajudam a compreender a contestação social que alastra no sul, sujeito a violentos processos de ajustamento, uns formais (Grécia Irlanda e Portugal) e outros informais (Espanha e, dentro em breve, Itália). A sensação com que se fica depois de tantas imagens de contestação social nestes países é que ninguém está para fazer sacrifícios: os eleitores, mesmo sabendo que a situação macroeconómica dos seus países não é sustentável (défices graves das contas públicas e da conta corrente), têm dificuldade em aceitar sacrifícios. É como se achassem que o desenvolvimento económico se faz numa linha sempre ascendente, sem percalços...

À primeira vista esta dificuldade em viver com menos é surpreendente. Porque a História dos últimos cem anos de Portugal, Espanha, Itália e Grécia é, em boa parte, uma História de pobreza (para não dizer miséria). A situação só muda com o fim da II Guerra e o surto de desenvolvimento que se seguiu à criação da CEE (que beneficiou mais Itália que Portugal e Espanha, estes últimos "entretidos" com as suas ditaduras).

Sendo assim fica uma pergunta: o que leva países habituados a dificuldades a recusarem os programas de ajustamento? Provavelmente o facto de viverem em abundância há tempo suficiente para que a ideia de regressão de riqueza, ainda que temporária, tenha deixado de ser aceitável. Porque no período de tempo que passou entre a "era das dificuldades" e a crise actual desapareceram as gerações que conheceram o valor da palavra "sacrifício".


camilolourenco@gmail.com

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