António Pinto Leite
António Pinto Leite 02 de janeiro de 2017 às 14:15

O ano da opinião pública alemã

Este será um ano de "stress test" da construção europeia. E os europeus chegam aqui desorientados e vulneráveis.

Vem-me à memória um debate que tive, há cerca de 30 anos, com o Embaixador Franco Nogueira. Em síntese, Franco Nogueira criticava a opção estratégica europeia de Portugal, não porque a união dos países europeus fosse um projeto mau, mas porque era um projeto historicamente inviável. De modo sugestivo, fundamentou a sua visão na História da Europa, na incontornabilidade vulcânica dos nacionalismos europeus e nas tentativas anteriores mal sucedidas. Para ele, Portugal iria perder a autonomia estratégica por um projeto que, mais tarde ou mais cedo, se iria, inexoravelmente, autodestruir às mãos dos insuperáveis nacionalismos europeus.

Tendo eu polemizado este ponto de vista, não deixei de reter o modo como Franco Nogueira sustentou que os Estados europeus, sobretudo os mais fortes, sempre atuariam no futuro em defesa dos seus próprios interesses permanentes e não em função de um interesse permanente europeu. O interesse permanente europeu apenas prevaleceria se e na medida em que viesse a coincidir com o interesse permanente dos principais Estados europeus, eles próprios contraditórios. Esta coincidência poderia ocorrer muitas vezes, mas não iria ocorrer sempre. Chegaria o dia de um desajustamento grave e teria lugar um desenlace dramático para a construção europeia e para Portugal.

Apesar de ter uma visão diferente, comungo do realismo de Franco Nogueira quanto à estrutura sísmica da construção europeia. Recuperei um texto que escrevi, há mais de vinte anos, no Expresso: «A construção europeia é, sobretudo, uma questão de tempo e de método. O essencial deste processo é que siga de perto o sentimento dos povos, o sentimento das pátrias, seja prudente, seja mais paciente do que vanguardista, saiba esperar os ciclos certos, não antecipe os modelos às consciências, prefira, até, em casos de divisão profunda, a sabedoria à democracia».

Tem tudo a ver com 2017. Este será um ano de «stress test» da construção europeia. E os europeus chegam aqui desorientados e vulneráveis. Porque não seguimos de perto os sentimentos dos povos e das pátrias, porque neste deserto de estadistas, raros sabem usar a sabedoria, enquanto muitos sabem abusar da democracia (com referendos irresponsáveis, calculando, ainda por cima mal, interesses políticos próprios).

Mesmo que vença as eleições de 2017, o espaço de manobra interno de Merkel e dos sectores moderados estará mais ameaçado.


Bom, os povos e as pátrias vão falar em 2017. Em França, em Itália, na Holanda e, sobretudo, na Alemanha. Curiosamente, quanto a populismos anti euro e a xenofobismos, prevalece o género feminino: duas mulheres, Marine le Pen, em França, e Frauke Petry, na Alemanha.

Os resultados são imprevisíveis e não se pode iludir o risco sistémico que cada eleição comporta. O efeito Trump é também difícil de prever, desde logo pelo próprio. As dinâmicas políticas e sociais associadas à crise dos refugiados manter-se-ão aleatórias. Os riscos do terrorismo são diários, como recentemente o chefe dos serviços secretos ingleses sublinhou com a maior preocupação, e o terrorismo pode mudar do dia para a noite as tendências da opinião pública. O nível de desinformação e de manipulação dos eleitores pelos «media» e pelos demagogos são outra patologia perigosa (como o Brexit evidenciou).

Neste contexto, o foco deve estar no fator de risco decisivo para os equilíbrios europeus: a opinião pública alemã.

No momento em que os políticos moderados alemães percam a sua opinião pública, ficará próximo o presságio de Franco Nogueira.

Em 2017, não é previsível que a Alemanha mude no essencial, mas é certo que não ficará igual e ficará mais vulnerável ao populismo que deve inquietar os portugueses: a direita nacional conservadora da AfD (Alternative für Deutschland), liderada por Frauke Petry, xenófoba e anti euro, passará a ter relevante peso político.

Durante anos, muitos portugueses «brincaram aos Hitlers» com a chanceler Merkel. Há dois erros de cálculo nisto: primeiro, a ideia infantil de que Merkel faz o que quer (com a Europa e com o povo alemão); segundo, a ideia ainda mais infantil de que todos os países europeus têm direito a ter uma opinião pública, com os seus egoísmos e vulnerabilidades, exceto a Alemanha.

Mesmo que vença as eleições de 2017, o espaço de manobra interno de Merkel e dos sectores moderados estará mais ameaçado. 

Nas eleições alemãs de Setembro iremos compreender a nossa fragilidade. É diferente do Brexit, é diferente de Trump, é diferente do crescendo de Marine le Pen. Esta entidade, a opinião pública alemã, tem efetivo poder para nos deixar desamparados diante das fúrias da História.
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