Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 19 de outubro de 2017 às 20:30

O apocalipse que estraga a narrativa rosa

Havia uma narrativa cor de rosa de um país de sucesso. A tragédia de Pedrógão criou a primeira contrariedade nesta história, mas o apocalipse que aconteceu nas beiras prova as inacreditáveis deficiências de um Estado frágil e mal gerido.

A narrativa do Portugal de sucesso onde tudo corria no melhor dos mundos colapsou com um apocalipse de fogo que deixou um rasto de morte e destruição a Norte do Tejo, mas mais devastador nas regiões das beiras. Do Interior até literalmente ao mar, as chamas nem pouparam o mítico Pinhal de Leiria.

 

Um Estado que apesar dos avisos meteorológicos não conseguiu mobilizar os meios de prevenção suficientes e que, incapaz de responder perante o alastrar das chamas, deixou nessa madrugada fatídica dezenas de aldeias sozinhas e indefesas, é um Estado falhado.

 

O Governo errou e António Costa teve de ouvir o primeiro discurso de censura por parte do Presidente da República para aceitar a demissão da ministra da Administração Interna.

 

O apocalipse de chamas que devastou as Beiras, sem bem que também tenha havido incêndios perigosos mais a Norte, teve um impacto geográfico e político superior à tragédia de Pedrógão. Ardeu uma enorme mancha a Norte do Tejo. Dezenas de concelhos atingidos, muitas auto-estradas cortadas, com dezenas de milhares de pessoas em pânico.

 

Após a esmagadora vitória das eleições locais tudo parecia correr bem a António Costa. E o orçamento do Estado apresentado 48 horas antes do apocalipse continuava esse caminho de facilidades para ganhar eleições legislativas.

 

No orçamento que aumenta pensionistas e através do descongelamento das carreiras agrada à Função Pública, o Governo agrada à maioria dos dois sindicatos eleitorais mais poderosos do país. Mas com milhões de famílias a beneficiar do desagravamento do IRS o campo de sedução política é ainda mais vasto.

 

É certo que há um agravamento dos impostos indirectos, mas como já se sabe essa carga fiscal não é notada da mesma maneira. Os consumidores pagam mais impostos nas cervejas, bolachas ou flocos de cereais, mas não vão culpar o governo por isso.

 

É o que já acontece com o verdadeiro confisco que é a tributação sobre o sector automóvel ou sobre os combustíveis. Nenhum cidadão se lembra quando enche um depósito de gasóleo que metade do que paga é para os impostos.

 

Com a economia em alta e os juros da dívida em baixa, o Governo continua a fugir a reformas estruturais e a empurrar o país com a barriga. Verdade seja dita, que nem a troika conseguiu reformar o Estado, apenas aplicou cortes cegos.

 

Ninguém pensa a médio e longo prazo, só no ciclo eleitoral. Talvez por isso Portugal seja palco de tantas tragédias.

 

Saldo positivo: Eduardo Cabrita

 

Ao contrário da ministra demissionária, que se revelou um absoluto erro de casting, Eduardo Cabrita tem o perfil para desempenhar bem o cargo de ministro da Administração Interna. Conhece bem o país e todos os municípios, uma vez que já tutelou a administração local, tem bom senso e capacidade de negociação. Oxalá na área de combate aos fogos consiga domar os 'lobbies' que estão na mira dos milhões do Estado e que, por vezes, são parte do problema.

 

Saldo negativo: Protecção Civil

 

Um sistema fundamental para a defesa interna do país foi gerido como um local preferencial para colocação da malta partidária dos sucessivos governos. O escândalo dos cursos à pressão, cheios de equivalências manhosas, é apenas um reflexo dessa cultura de "jobs for the boys". A imagem da tutela ficou chamuscada neste processo, mas a máquina da protecção civil é que falhou. É urgente uma alteração profunda para evitar os erros deste ano demasiado trágico.

 

Algo completamente diferente: Confronto político entre Catalunha e Madrid

 

A questão catalã é demasiado importante para Portugal. Por isso é importante que haja uma solução pacífica e negociada para o conflito entre o governo autonómico da Catalunha e o governo central de Espanha. Rajoy, seguindo a tradição castelhana, respondeu de forma desproporcionada. Com a intervenção da polícia meteu gasolina no fogo independentista. As notícias do conflito institucional não são animadoras, mas ainda não é tarde para haver uma solução pactuada entre ambas as partes, com respeito pelas diferenças culturais e políticas dos catalães. 

pub