O baixo custo de acabar com a pobreza

A verdadeira tragédia é que a melhor solução para a pobreza não custa nada. O crescimento económico generalizado sempre foi o caminho mais eficaz para reduzir a privação.

A pobreza é a mais cruel aflição da humanidade. Se uma pessoa é extremamente pobre, não tem recursos para evitar até as doenças facilmente curáveis que causam uma em cada seis mortes humanas. Os seus pulmões estão cheios de poluição do ar, porque, juntamente com outros 2,7 mil milhões de pessoas, cozinha e aquece-se com combustíveis como esterco e madeira – que tem o mesmo efeito que que fumar dois maços de tabaco todos os dias. Uma dieta inadequada faz com que os seus filhos cresçam fisicamente atrofiados e prejudica o seu desenvolvimento cognitivo, retirando 4 a 8 pontos de QI em média. Uma privação deste nível conduz ao stress profundo e desespero, tornando difícil agir de forma a melhorar a sua vida.

 

Naturalmente, o mundo tem feito grandes progressos na luta contra a pobreza. Em 1820, nove em cada dez pessoas viviam na pobreza extrema. O Banco Mundial estima que, pela primeira vez na história da humanidade, a taxa global de pobreza caiu para um dígito em 2015. Hoje, 9,1% da população mundial, ou quase 700 milhões de pessoas, vivem com menos de 1,90 dólares por dia (o que equivale a um dólar em 1985).

 

Este patamar de 1,90 dólares para a pobreza extrema é um limite ajustado: não é o que um turista rico pode comprar num país em desenvolvimento muito barato. É o que um americano poderia comprar nos Estados Unidos por 1,90 dólares. O nível é ajustado ao poder de compra equivalente na moeda local.

 

O falecido economista Anthony Clunies Ross fez uma primeira tentativa de calcular os custos de resolver o problema da pobreza para sempre, estimando quanto seria necessário, em termos de transferências de dinheiro, para tirar da pobreza todas as pessoas do planeta.

 

Vamos actualizar a sua abordagem (um exercício que também foi realizado recentemente pela Brookings Institution). Podemos começar observando, por exemplo, o caso da Indonésia - com cerca de 257 milhões de pessoas, o quarto país mais populoso do mundo. Há 20 anos, cerca de metade dos indonésios eram pobres, enquanto a mais recente estimativa, de 2014, mostra que pouco mais de 8%, ou 21 milhões de pessoas, estavam abaixo do limiar de 1,90 dólares por dia. Em média, faltam a esses indonésios 29 cêntimos de dólar para chegar ao patamar de 1,90 dólares; o que significa que 21 milhões de pessoas precisam de 29 cêntimos a mais por dia - ou cerca de 6 milhões de dólares no total - para sair da pobreza extrema. Ao longo de um ano, isso totaliza 2,2 mil milhões de dólares.

 

Uma vez que isto se baseia no que os americanos poderiam comprar por 2,2 mil milhões de dólares nos Estados Unidos, o custo real na rupia da Indonésia seria muito menor. O custo, ajustado à taxa de câmbio, seria de cerca de 700 milhões de dólares.

 

Com uns estimados 268 milhões de pessoas na pobreza extrema, na última pesquisa de 2011, a Índia é o lar do maior número absoluto de pessoas pobres do planeta. Cada uma está, em média, 38 cêntimos abaixo da linha de pobreza extrema. Para a Índia, o custo totaliza quase 11 mil milhões de dólares.

 

Os países onde seria mais caro acabar com a pobreza são a República Democrática do Congo e a Nigéria. Na RDC, 77% da população é extremamente pobre ficando um dólar abaixo da linha de pobreza, em média. Combinado com uma taxa de câmbio fraca, o custo para a RDC excede os 12 mil milhões de dólares.

 

Ajustando à falta de dados de países como a Coreia do Norte, Iémen e Zimbabwe, o custo total da erradicação da pobreza com base nos dados disponíveis mais recentes parece ser um pouco menos de 100 mil milhões de dólares. A Brookings extrapolou as tendências anteriores e dados de outros países dentro das regiões, e considera que o custo em 2015 poderia ser tão baixo como 75 mil milhões de dólares por ano. Para contextualizar esse número, o mundo gasta 140 mil milhões de dólares em ajuda ao desenvolvimento todos os anos.

 

Naturalmente, este é um exercício com limites. No mundo real, não seria possível identificar todos os pobres carentes do mundo e distribuir exactamente 29 ou 38 cêntimos sem incorrer em custos muito mais elevados. Mas permite identificar a escala do maior problema do mundo.

 

Espera-se que haja um pouco menos de 400 milhões de pobres em 2030, e o crescimento dos rendimentos deve erradicar quase totalmente a pobreza até 2060. Com base nessa informação, podemos estimar o custo agregado futuro de erradicar a pobreza em cerca de 1,5 biliões de dólares. Se deixarmos de lado o dinheiro agora num fundo (que renderia juros nos próximos 45 anos), precisaríamos de um pouco menos de 1 bilião de dólares para erradicar a pobreza humana para sempre.

 

Um bilião de dólares parece um montante muito elevado. Na verdade, é equivalente a aproximadamente 1% do PIB global anual, 18 meses de gastos militares nos EUA, ou uma vigésima parte da dívida nacional dos EUA. É também equivalente ao custo implícito do acordo climático de Paris, em apenas um ano, que promete - se continuarmos a pagar um bilião de dólares todos os anos – travar a subida da temperatura em 0,17 ° C em 2100.

 

A verdadeira tragédia é que a melhor solução para a pobreza não custa nada. O crescimento económico generalizado sempre foi o caminho mais eficaz para reduzir a privação: em 30 anos, o aumento do crescimento económico da China colocou 680 milhões de pessoas acima da linha de pobreza. Um acordo de livre comércio global - como uma conclusão bem-sucedida da Ronda de Desenvolvimento de Doha – tiraria outros 160 milhões de pessoas da pobreza.

 

O cepticismo global em relação ao livre comércio, incitado pelo presidente dos EUA Donald Trump e outros, significa que estamos a perder uma oportunidade incrivelmente importante. Entretanto, devemos defender os mais poderosos investimentos em desenvolvimento: os gastos com nutrição infantil, imunização, educação infantil e bolsas de estudo para meninas podem levar a melhorias significativas e duradouras na saúde e nos níveis de rendimento.

 

Mas também devemos perceber que, pela primeira vez, o fim da pobreza está realmente ao alcance da humanidade em termos financeiros. E devíamos desafiar os nossos líderes políticos a responderem por políticas muito mais caras que resultam em muito menos.

 

Bjørn Lomborg é director do Copenhagen Consensus Center e professor convidado da Copenhagen Business School.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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mais votado IS 10.05.2017

Artigo com interesse assinado pelo prof Bjørn Lomborg da Copenhagen Business School. Boa tradução de Rita Faria!
Este é o artigo original:
https://www.project-syndicate.org/commentary/low-cost-of-ending-global-poverty-by-bjorn-lomborg-2017-04

comentários mais recentes
IS 04.06.2017

A pessoa que campo nome escreve "Não é isso" é um de entre vários atrasados mentais iletrados que se dão ao luxo de publicar a sua opinião neste espaço sem assinarem a mediocridade que escrevem.

IS 10.05.2017

Artigo com interesse assinado pelo prof Bjørn Lomborg da Copenhagen Business School. Boa tradução de Rita Faria!
Este é o artigo original:
https://www.project-syndicate.org/commentary/low-cost-of-ending-global-poverty-by-bjorn-lomborg-2017-04

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