Stephen  Roach
Stephen Roach 12 de dezembro de 2016 às 20:00

O calcanhar de Aquiles da estratégia económica de Trump

Proteccionismo, poupanças anémicas e despesas assentes em défice fazem um cocktail especialmente tóxico. Com a estratégia económica de Trump vai ser extremamente difícil tornar a América grande novamente.

A estratégia económica de Donald Trump tem sérias falhas. O presidente eleito dos Estados Unidos quer restabelecer o crescimento através de despesa assente em défice num país que tem uma escassez crónica de poupanças. Isto aponta para uma maior compressão das poupanças nacionais, o que fará com que seja inevitável uma ampliação de um fosso comercial, que já está sobredimensionado.

 

Esta dinâmica revela o calcanhar de Aquiles da estratégia económica de Trump: um preconceito proteccionista flagrante que colide com a inevitável dependência dos Estados Unidos das poupanças externas e com o défice comercial para apoiar o crescimento económico.

 

A administração Trump não vai herdar uma economia norte-americana forte e sólida. O ritmo de recuperação desde a Grande Recessão tem decorrido a metade da velocidade daquele que é o ritmo normal de um ciclo de recuperação – que é o mais preocupante de tudo dado o elevado nível de contracção económica registado em 2008-2009. E as poupanças, a semente da prosperidade futura, continua a ser muito escassa. A chamada taxa de poupança nacional líquida – a soma ajustada da depreciação das poupanças das empresas, famílias e Governo – era de apenas 2,4% em meados de 2016. Apesar de ser uma melhoria face aos níveis negativos e sem precedentes das poupanças entre 2008 e 2011, a taxa de poupança continua a estar longe da média de 6,3% que foi registada nas últimas três décadas do século XX.

 

Isto é importante porque explica os défices comerciais perniciosos contra os quais Trump continua a embater. Tendo poupanças escassas e vontade de crescer, os Estados Unidos têm de importar poupanças do estrangeiro. E a única maneira de atrair capital estrangeiro é através de grandes défices da conta corrente e comercial. Os números corroboram isto: desde 2000, quando as poupanças nacionais caíram bem abaixo da tendência, o défice da conta corrente cresceu para uma média de 3,8% do PIB – quase quatro vezes o fosso de 1% registado entre 1970 e 1999. Da mesma maneira, o défice das exportações líquidas – a medida mais ampla do desequilíbrio comercial de um país – foi de 4% do PIB desde 2000, valor que compara com uma média de 1,1% nas últimas três décadas do século XX.

 

A estratégia económica de Trump tem uma causa e um efeito por detrás do seu atraso. Trump está fixado nas fontes específicas do défice comercial, como a China e o México, mas não vê o ponto fundamental da questão que está relacionado com o facto de estes défices bilaterais serem sintomas de um problema profundo ao nível das poupanças dos Estados Unidos. Pensemos no momento em que os Estados Unidos terminam o comércio com a China e com o México – o primeiro e o quarto maior componente de todo o défice comercial – através de uma combinação de tarifas e outras medidas proteccionistas (incluindo a proposta de renegociação do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio - NAFTA na sigla em inglês – e o muro na fronteira com o México financiado por este último país). Sem abordar a escassez crónica de poupanças dos Estados Unidos, as componentes mexicanas e chinesas do défice comercial seriam simplesmente distribuídas por outros países – muito provavelmente países produtores com custos mais elevados. O resultado seria o equivalente a uma subida de impostos para as famílias norte-americanas de classe média.

 

Em suma, não há uma solução bilateral para um problema multilateral. Os Estados Unidos tiveram défices comerciais com 101 países em 2015 – um problema multilateral resultante de uma escassez de poupanças que não pode ser abordado eficazmente através de "remédios" específicos por país. Ainda assim, isto não quer dizer que os parceiros comerciais dos Estados Unidos deveriam seguir práticas injustas. Mas significa que há uma esperança limitada na resolução destes aparentes défices comerciais crónicos – e a erosão relacionada com as contratações domésticas vinculadas a esses desequilíbrios – se os Estados Unidos não começam a poupar novamente.

 

Infelizmente, a situação vai tornar-se mais complicada. A estratégia económica de Trump irá provavelmente exacerbar a escassez de poupanças dos Estados Unidos nos próximos anos. As análises do Tax Policy Center, do Tax Foundation e da Moody’s Analytics indicam que os défices orçamentais federais sob o plano económico de Trump vão voltar para, pelo menos, 7% do PIB durante os próximos dez anos. Os conselheiros séniores em política económica de Trump, Peter Navarro e Wilbur Ross (Trump escolheu-o para secretário do Comércio), argumentaram num relatório, publicado em Setembro, que estas estimativas não estavam correctas porque não têm em conta "os ganhos indutores de crescimento" que advêm das reformas regulatórias e na energia, nem incluem os ganhos que podem chegar através da bonança criada pela acentuada diminuição do défice comercial dos Estados Unidos.

 

De facto, a análise de Navarro-Ross aponta que a estratégia económica do presidente eleito dá ganhos de crescimento que atingem os 73% e melhorias elevadas na balança comercial total durante a próxima década. Ainda assim, e como foi dito já, sem um crescimento milagroso das poupanças nacionais, isto é muito duvidoso. A contabilidade criativa - há muito um elemento essencial da economia do lado da oferta - nunca teve tanta imaginação.

 

Ali reside uma das falhas mais notórias da estratégia económica de Trump. Ser duro em questões comerciais numa altura em que a poupança nacional está prestes a sofrer uma pressão ainda maior não faz sentido. Mesmo as estimativas mais conservadoras do défice orçamental federal sugerem que a taxa de poupança liquida nacional, que já está deprimida, pode voltar a entrar em terreno negativo entre 2018-2019. E isso iria colocar uma pressão renovada sobre o défice da conta corrente e sobre o défice comercial, fazendo com que fosse muito difícil reverter a perda de empregos e rendimentos que os políticos acusam de ser responsabilidade dos parceiros comerciais dos Estados Unidos.

 

Ironicamente, numa altura em que se aproxima a chegada de uma era de poupanças negativas, os Estados Unidos vão ficar cada vez mais dependentes do excesso de poupança externa. Se a administração Trump se atirar aos principais credores estrangeiros – nomeadamente à China – a sua estratégia rapidamente pode voltar-se contra si. No mínimo, pode haver um impacto adverso no endividamento externo dos EUA e isso pode significar taxas de juro mais elevadas – algo do qual já há indícios evidentes – e, em última análise, pode colocar uma pressão descendente no dólar. E, claro, no pior cenário, uma escalada da guerra comercial mundial.

 

Proteccionismo, poupanças anémicas e despesas assentes em défice fazem um cocktail especialmente tóxico. Com a estratégia económica de Trump vai ser extremamente difícil tornar a América grande novamente.

 

Stephen S. Roach, membro do corpo docente da Universidade de Yale e ex-presidente do Morgan Stanley na Ásia, é o autor de "Unbalanced: The Codependency of America and China".

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro

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