Miguel Pina e Cunha
Miguel Pina e Cunha 08 de fevereiro de 2017 às 21:05

O carisma está de volta - e isso não é uma boa notícia

Tempos interessantes geram líderes interessantes. Durante anos, os media e os cidadãos clamaram pela emergência de líderes empolgantes. A justificação radicava na falta de líderes com visões transformadoras, capazes de mobilizar desígnios e vontades.

A Europa estaria a tornar-se um museu à espera da visita dos turistas asiáticos. Num certo sentido, a Europa teria chegado ao fim da História. A História, todavia, nunca acaba e reentrou em cena com estrondo. Curiosamente, o momento de suposto fim da História foi um tempo de estabilidade económica e do discurso politicamente correto.

 

Entretanto, os tempos mudaram. A política a sério voltou e as escolhas clivaram-se. As economias ocidentais medraram. O desemprego fustigou algumas sociedades, deslaçando o capital social. As Primaveras Árabes chegaram ao inverno. Conduziram à Europa vagas de refugiados. O medo do outro tornou-se palpável e os atentados terroristas conferiram justificação racional à emoção.

 

Este caldo, chamemos-lhe esta tese, acabou por gerar uma antítese. O cansaço com o politicamente correto tornou a antítese, o politicamente incorreto, apelativa. O discurso inócuo do politicamente correto tornou atrativo o seu contrário. O resultado é o que se vê: o surgimento um pouco por todo o mundo de líderes carismáticos com características perigosas.

 

O carisma pode ser positivo quando socializado e orientado para a criação de instituições inclusivas. Pode ser perigoso, tóxico e intoxicante, quando personalizado, ou seja, quando tomado como um instrumento de realização do poder pessoal. O que é preocupante na recente vaga de carismáticos é justamente o número de líderes messiânicos com visões personalizadas, não inclusivas e intolerantes.

 

O grupo dos carismáticos politicamente incorretos inclui Putin, Trump, Orban, Erdogan, Duterte. Todos eles assumem o papel de grandes homens, por vezes com traços messiânicos. Entendem-se como salvadores da pátria, como "purificadores", cujo papel é o de purgar as suas sociedades dos males que as afligem. Duterte, o justiceiro filipino, assume mesmo ter as mãos sujas de sangue em nome de uma boa causa, apresentando-se como uma espécie de Dirty Harry de Davao. O mundo assiste incrédulo, mas os seus eleitores parecem apreciar. 

 

Os líderes carismáticos podem não passar de figuras mais ou menos exóticas quando enquadrados por instituições fortes. Quando os contextos institucionais são fracos e os carismáticos os podem esvaziar, eles podem fazer estragos. Como escreveu Gideon Rachman no Financial Times, estes autodesignados "grandes homens" com frequência preferem resolver as coisas homem a homem (digamos Trump e Putin), em vez de seguirem o quadro institucional. O facto de o grupo poder vir a ser alargado no futuro próximo não torna o cenário mais promissor. O carisma está de volta, mas isso não é necessariamente uma boa notícia.

 

Professor na Nova School of Business and Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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