Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 03 de janeiro de 2018 às 22:24

O caso alemão

Se o impasse político que se vive na Alemanha, em torno da formação do novo Governo, se verificasse em Portugal, estaríamos a arrasar o "amor-próprio" nacional. Na verdade, passaram três meses e meio desde o ato eleitoral e nunca mais se chega a uma conclusão.

Durante dois meses, tentou a chanceler Merkel a coligação Jamaica com os liberais e os Verdes, e não resultou. Depois, têm sido as negociações com os sociais-democratas de Schulz, que tinha garantido que não havia nenhuma hipótese de tal acontecer, pois considerava adequada para o seu partido uma "cura de oposição". Se fosse por cá, estaria a ser arrasado por incoerência. Como não é por cá e é de esquerda, é certamente por patriotismo. Por mim, não tenho dúvida de que é. Todos esperamos que rapidamente se encontre uma solução. Seria muito complicado, para a Alemanha e para a Europa, que fossem necessárias novas eleições.


O que importa reter, a propósito de Portugal, são as consequências de uma grande coligação ao centro do sistema partidário, ou seja, um bloco central. Os extremos do sistema tendem naturalmente a crescer, em especial nos tempos de crise. Na Alemanha, assim aconteceu e com esta consequência adicional da quase impossibilidade de formação de maiorias coerentes e estáveis.

Se olharmos para o funcionamento da generalidade das democracias, há dois partidos alternativos, e esses, por regra, não se juntam no Governo. Na Alemanha, juntaram-se, e a extrema-esquerda com a extrema-direita já passam os 20%. A extrema-direita não entrava no Bundestag desde a Segunda Guerra Mundial e os sociais-democratas tiveram a sua pior votação desde 1949. Em Portugal, temos, há muito, um peso da esquerda mais esquerda, ou extrema-esquerda, entre 15 e 20%. No Reino Unido não existe e em França também não. Em Espanha, o PSOE deu terreno ao Podemos, mas nas outras democracias tal não acontece. Voltando a referir França, veja-se como o nascimento de um grande movimento político ao centro, num processo de reformulação do sistema partidário, resultou na perda de terreno de todas as forças partidárias, incluindo as extremistas. Trata-se, até agora, de um caso excecional que em nada prejudica o que aqui se pretende sublinhar.

A possibilidade de forças extremistas ganharem peso é maior do que há anos, principalmente, por ter decorrido mais tempo de desgaste das forças políticas tradicionais e por causa da crise económica e financeira pós-2008.

Nas opções políticas que fazemos devemos ser construtivos, sempre em nome do interesse nacional. Importa sempre procurar o caminho que proteja o mais importante. Nesta questão do bloco central, ou de grandes coligações, importa também que se seja claro. Como em tudo na vida, importa saber, conhecer, comparar, antes de se decidir. "Ao fim e ao cabo", importa saber do que se fala. 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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