Robert Skidelsky
Robert Skidelsky 27 de Novembro de 2016 às 20:00

O caso para a substituição das importações do Reino Unido

Os consumidores e produtores britânicos terão de suportar o essencial do fardo da desvalorização: o seu consumo de importações será racionado através de um acentuado crescimento da inflação, sem que se verifique um efeito compensatório do lado das exportações.

O efeito económico mais dramático do voto britânico favorável ao Brexit tem sido o colapso da libra. Desde Junho, a libra caiu cerca de 16% contra o cabaz de divisas. Mervyn King, o antigo governador do Banco de Inglaterra, elogiou a baixa taxa de câmbio considerando que é uma "mudança bem-vinda". Na verdade, com um défice da conta corrente num nível superior a 7% do PIB – de longe o mais alto desde que começaram a ser compilados dados em 1955 – a depreciação poderia ser vista como uma bênção. Mas será?

 

Tipicamente os economistas defendem que a forma de equilibrar as contas externas de um país é através da desvalorização da sua moeda, o que torna as importações mais caras e as exportações mais baratas, levando a que as primeiras caiam e as últimas cresçam. Preços das importações mais altos – uma perda líquida para o país – seriam compensados por níveis mais altos de emprego e salários gerados por uma posição mais competitiva do país em termos de exportações.

 

Mas para que a depreciação monetária faça a sua magia é preciso esperar que se verifique uma maior procura das exportações no futuro próximo quando a taxa de câmbio cair (ou, como dizem os economistas, a elasticidade do preço da procura pelas exportações tem de ser elevada). Porém, vários estudos mostraram que a elasticidade dos preços da procura pelas exportações do Reino Unido é baixa. Por exemplo, um recente estudo de Francesco Aiello, Graziella Bonanno e Alessia Via do European Trade Study Group, conclui que "o nível das exportações no longo prazo parece não estar relacionado com a taxa real de câmbio no caso do Reino Unido".

 

Isto significa que os consumidores e produtores britânicos terão de suportar o essencial do fardo da desvalorização: o seu consumo de importações será racionado através de um acentuado crescimento da inflação, sem que se verifique um efeito compensatório do lado das exportações. Esta não é, de forma alguma, uma proposta meramente teórica. Em 2008-2009, quando o resto do mundo estava à beira da deflação, o Reino Unido atravessava uma duradoura recessão inflacionária, com o PIB a contrair-se a uma taxa máxima anual de 6,1% enquanto a inflação atingia os 5,1%. Isto ocorreu porque a libra caiu mais de 21% entre 2007 e 2008, do seu pico até ao nível mais baixo.

 

Além do mais, apesar de o défice da conta corrente ter encolhido para cerca de 1,7% do PIB em 2011, a melhoria foi apenas temporária. Depois de 2011, o défice da conta corrente começou a alargar-se uma vez mais, embora a libra não tenha recuperado das suas perdas. Num jargão económico, o Reino Unido parece estar a sofrer uma variante extrema do efeito Houthakker-Magee – designado depois de dois economistas terem descoberto, em 1969, que a elasticidade dos preços para as importações e exportações pode divergir substancialmente, dando lugar a uma tendência permanente em direcção ao desequilíbrio da conta corrente.

 

A razão parece prender-se com a contracção massiva do sector industrial britânico – de cerca de 28% de valor bruto acrescentado em 1978 para menos de 10% na actualidade. Como apontou há muito tempo o economista Nicholas Kaldor, devido ao facto de a produção industrial assegurar uma escala de rendimentos superior aos serviços, as exportações industriais tendem a bater as exportações de serviços.

 

Além disso, as reformas estruturais feitas desde meados dos anos 1990 fizeram com que as exportações britânicas estejam profundamente integradas nas cadeias de produção globais. Como resultado, muitas das exportações britânicas requerem 'inputs' importados; por isso, quando a libra deprecia e os preços das importações sobem, o efeito em cadeia sobre os preços das exportações faz com que estas sejam menos competitivas. Os dados mais recentes da OCDE mostram que, os conteúdos importados das exportações britânicas são de cerca de 23%, valor que compara com os cerca de 15% nas exportações dos Estados Unidos e do Japão.  

 

Por agora o Reino Unido está dependente dos influxos de capitais para a City de Londres para limitar a desvalorização da libra. Mas, tal como mostrou o colapso das taxas de câmbio em 2008, esta fonte de procura estrangeira pela libra é altamente instável. Quando as coisas virarem e estes fluxos reverterem, tanto a libra como as exportações sofrerão outro impacto.

 

O pior cenário envolveria uma enorme quebra do valor da libra seguida de uma inflação persistente que reforçaria o crescimento dos preços das exportações britânicas, alimentando posteriores depreciações cambiais. Este ciclo vicioso só pararia quando os consumidores do Reino Unido sofressem uma quebra no salário real de uma magnitude que normalmente não é observada fora dos países em desenvolvimento.

 

O resultado mais provável passa por uma espécie de apodrecimento lento, com periódicas depreciações que fariam baixar gradualmente o nível de vida de todos os que ganhassem a sua vida em libras.

 

O que pode ser feito? Apenas acções rápidas do Governo com vista à substituição de bens actualmente importados por bens produzidos ao nível doméstico podem resultar. A solução clássica é o controlo de importações. Mas existem outras medidas, que são menos danosas para as regras comerciais e a amizade entre os países.  

 

O banco de investimento nacional que o Partido Trabalhista tem agora defendido poderia receber um mandato para investir em indústrias com um elevado potencial de substituição de importações. Uma alternativa seria o Ministério das Finanças subsidiar directamente essas indústrias, recorrendo a subsídios vinculados ao preço ajustado das importações que seriam substituídas. À medida que os bens domesticamente produzidos se tornassem competitivos face aos bens estrangeiros, os subsídios iriam sendo removidos gradualmente e a ia-se deixando as indústrias subsistirem por si próprias.

 

Idealmente, o Governo britânico deveria definir como objectivo fazer recuar as importações em percentagem do PIB do actual máximo de 30% para o patamar anterior a 1974, de cerca de 20%. Isto poderia provar-se demasiado ambicioso e o Reino Unido poderia ter de se ficar em qualquer coisa como 25% do PIB. Mas se nada for feito, a Grã-Bretanha enfrenta o risco de uma deterioração permanente de prosperidade. Uma economia deprimida pode ser inflacionada e uma economia inflacionária pode deprimir-se. Mas perder o acesso a mercados estrangeiros cruciais enquanto resultado de movimentos cambiais externos ao controlo do país é, em grande medida, irreversível.

 

Robert Skidelsky, é membro da British House of Lords, é professor jubilado de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: David Santiago

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