Fernando  Sobral
Fernando Sobral 05 de junho de 2017 às 21:10

O cerco ao Qatar

O corte de relações diplomáticas com o Qatar, decidido pela Arábia Saudita e os seus maiores aliados, arrisca desestabilizar ainda mais o Médio Oriente.

O corte de relações diplomáticas (bem como os contactos feitos por terra, mar e ar) com o Qatar, decidido pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egipto e Bahrain, era um epílogo esperado. O argumento é que se torna mais elaborado: o reino saudita diz que a decisão foi tomada para se proteger do "extremismo" e do "terrorismo". É a maior crise diplomática de que há memória nos países do Golfo Pérsico e surge na sequência de uma sofisticada acção de propaganda que visou desacreditar o Qatar e o seu emir, Tamim bin Hamad Al-Thani. Ao mesmo tempo nos EUA a campanha de imprensa contra o Qatar subiu de tom, numa altura em que eram visíveis as aproximações entre a Arábia Saudita (sede do "wahhabismo", a vertente mais radical do Islão e fonte de influência para os seus sectores mais extremistas) e a tentativa de os Emirados Árabes Unidos de serem os grandes aliados da administração Trump na região. Pelo meio o canal Al Jazeera (do Qatar) foi bloqueado pela Arábia Saudita e pelos EAU.

 

Recorde-se que o Qatar tem desenvolvido uma profunda actividade diplomática na região nos últimos anos e é ali que está situada a base aérea de al-Udeid, sede do comando central americano na zona e onde estão 10 mil militares. O Qatar sempre criticou os seus vizinhos pelo seu apoio aos extremistas. Pelo contrário, a Arábia Saudita e os seus aliados criticavam o apoio de Doha à Irmandade Muçulmana do Egipto e o apoio financeiro ao Hamas na Faixa de Gaza. É hoje duvidoso que esta acção da Arábia Saudita e dos seus países satélites tivesse avançado sem o beneplácito norte-americano.

 

 Toda esta dissensão entre Riade e Doha lança mais achas para uma fogueira onde novas alianças se vão forjando no Médio Oriente. E velhos aliados se desentendem. Todo este clima de desconfiança aumentou com a divulgação de alegados e-mails do embaixador dos Emirados Árabes Unidos em Washington que poderão pôr em causa a diplomacia dos EAU, considerado um dos mais activos aliados dos EUA na região. Segundo os mails divulgados haverá uma forte ligação entre os EAU e "think tanks" ligados a Israel. Além disso evidenciam-se os esforços dos EAU para denegrir as imagens do Qatar e do Kuwait. Neles referencia-se também uma eventual ligação dos EAU à tentativa de golpe de Estado na Turquia e a luta contra os seus inimigos Hamas e Irmandade Muçulmana, zona de choque entre Doha e Riade, neste último caso. Parece evidente que os EAU tentam ser o braço-direito dos EUA na região, mesmo à custa da Arábia Saudita. Mas esta sucessão de factos começa a ser factores de desestabilização do Conselho de Cooperação do Golfo, cada vez mais dividido sobre múltiplos assuntos, como o da relação com o Irão.

 

Filipinas na rota do Daesh asiático 

 

O recente ataque a um casino em Manila, capital das Filipinas, não está aparentemente ligado ao crescente terrorismo islâmico no país. Mas ecoa o conflito crescente na ilha de Mindanao, colocada novamente sob lei marcial pelo Presidente Rodrigo Duterte, tal como fizera há algumas décadas Ferdinand Marcos. A decisão foi tomada depois do ataque do grupo islâmico Maute (ligado ao Daesh) à cidade de Marawi, o maior centro urbano de Mindanao, uma zona de maioria muçulmana. Duterte, há que recordar, é o primeiro Presidente filipino oriundo de Mindanao. O recente ataque ocorreu depois de os militares filipinos terem falhado a captura  de Isnilon Hapilon, líder do grupo Abu Sayyaf (também ligado ao Daesh), que é considerado como o mais provável rosto de uma tentativa de criação de um califado no Sudoeste Asiático.

 

A situação nas Filipinas não pode ser desligada do que se está a passar em todo o Sudoeste Asiático, com a crescente presença de grupos ligados ao Daesh. E que coloca a Ásia como novo foco de referência desta "guerra global". Basta recordar que no ataque a Marawi estiveram militantes da Malásia e da Indonésia, mostrando uma rede semelhante ao que se viu na Síria ou no Iraque, com combatentes vindos de outras nações. O grupo Jemaah Islamiah, da Indonésia, tem uma base de treino nas Filipinas desde 1994. Desde então ali têm treinado militantes indonésios, tailandeses e de alguns países árabes. A ligação que causa mais preocupação é a que foi estabelecida entre grupos das Filipinas e da Malásia. Mindanao serve perfeitamente como objectivo central para a criação de um "califado" no Sudoeste Asiático. E Marawi, nesse aspecto, tinha um simbolismo especial para estes grupos de radicais islâmicos: é considerada a Meca das Filipinas, já que ali há um considerado número de mesquitas consideradas sagradas.

 

Macau: projectos económicos analisados

 

O Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento China-Países de Língua Portuguesa está a analisar 20 projectos apresentados por empresários em Portugal, Timor-Leste e Brasil que pretendem obter financiamento para a sua execução. O Fundo, criado em 2013 com uma dotação de mil milhões de dólares, já apoiou projectos apresentados por grupos empresariais em Moçambique, Angola e Brasil em áreas como agricultura, energia e infra-estruturas. O apoio financeiro previsto para os projectos apresentados ao fundo é de 20 milhões de dólares por unidade, mas responsáveis da instituição referiram a abertura para estudar aumentos nas verbas a conceder, de acordo com a dimensão dos projectos de investimento apresentados. A transferência da sede do fundo de Pequim para Macau foi anunciada pelo primeiro-ministro da China, Li Keqiang, durante a 5.ª cimeira ministerial do Fórum de Macau realizada em Outubro de 2016.

 

O Fundo gerido pelo Fundo de Desenvolvimento China-África, na dependência do Banco de Desenvolvimento da China, dispõe actualmente de 125 milhões de dólares, que foram assegurados pelas entidades participantes China Development Bank Capital Corporation Ltd. (75 milhões de dólares) e Fundo de Desenvolvimento Industrial e de Comercialização (FDIC) de Macau (50 milhões de dólares).

 

Macau: sobe receita dos casinos

 

A receita bruta dos casinos de Macau registou um crescimento homólogo de 23,7% em Maio para 22.742 milhões de patacas (2.842 milhões de dólares). Além de ter registado o maior crescimento homólogo desde o início do ano, representa igualmente o décimo mês consecutivo de aumento da receita bruta dos jogos de fortuna e azar, série que se iniciou em Agosto de 2016 com um aumento de 1,1%. A receita bruta acumulada de Janeiro a Maio ascendeu a 13 297 milhões de dólares, um aumento de 15,8% comparativamente aos 91 .906 milhões de patacas contabilizados no período homólogo de 2016. Em 2016, as receitas dos casinos de Macau atingiram 27.901 milhões de dólares, montante que representou uma contracção de 3,3% relativamente ao valor contabilizado em 2015.  

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comentários mais recentes
Mr.Tuga 06.06.2017

O troglodita Trumpa a desestabilizar o mundo....

surpreso 05.06.2017

E não te pediram opinião?