Fernando  Sobral
Fernando Sobral 09 de outubro de 2017 às 19:30

O congresso de Xi Jinping

O 19.º Congresso do Partido Comunista Chinês está à porta e vai consagrar Xi Jinping e a sua estratégia para as próximas décadas. Um projecto de longo prazo. 

O 19.º Congresso do Partido Comunista da China, que se iniciará a 18 de Outubro, vai ser o da verdadeira consagração de Xi Jinping. Algo que o colocará, na História da China moderna, ao lado de Mao Tsé-Tung e de Deng Xiaoping. Ou seja, a política de Jinping será colocada quase no mesmo patamar da criação da República Popular da China em 1949 e do lançamento das reformas económicas feitas por Deng na década de 1970. As palavras de Jiang Jianguo, o chefe do Departamento de Propaganda do partido, são esclarecedoras: "Este congresso não terá a ver apenas com os próximos cinco anos, mas também com as próximas duas ou três décadas." Ou seja: a estratégia para o futuro ficará definida nesta reunião magna sob os auspícios de Jinping. Em 2012, quando tomou as rédeas do PCC, no seu 18.º Congresso, Jinping anunciou as bases do "sonho chinês" para o grande rejuvenescimento da nação. Ou seja, a criação de uma sociedade moderna em 2021, quando o PCC comemora um século de existência, e conseguir esse rejuvenescimento em 2049, quando a República assinala o seu centenário. Datas simbólicas, mas com muito significado, como é típico na China. Ou seja: o espaço previsto para se cumprir o "sonho chinês" de Jinping é de 32 anos. E é isso que vai ser estrategicamente definido nesta reunião do PCC.

 

O "sonho chinês" de Jinping assenta numa estratégia de três fases: reerguer a nação, torná-la mais rica e, depois, torná-la mais forte. Enriquecer a sociedade e, depois, torná-la poderosa e um sonho perfeito. E toda a acção da China nos últimos anos tem sido desenvolvida para seguir esse caminho: o desenvolvimento económico levou à criação de uma mais vasta e rica classe média e também criou condições para que o poder chinês se espalhasse pelo mundo, através do seu peso financeiro. As novas rotas da seda têm que ver com esta definição de futuro. O reforço militar e a crescente presença nos mares do Sul da China, onde a redefinição das fronteiras marítimas faz parte das prioridades de Pequim, seguem essa lógica. Jinping acredita que em meados do século XXI a China será um poder indiscutível no mundo, quebrando de vez a supremacia americana que durante o último século foi determinante no mundo. Num mundo multipolar, a China poderá ter então uma palavra a dizer, tão ou mais forte do que a de outras potências. Há um pormenor claro: a China continuará a seguir um caminho "socialista" autónomo, recusando ser ocidentalizada.

 

Médio Oriente: um novo ciclo de mudanças?

 

Quando se olha para o Médio Oriente parecemos defrontar-nos com uma região dividida em diferentes e opostos campos: sunitas e xiitas, árabes e não árabes, islamitas e secularistas. Mas muitas das posições parecem ser pouco sólidas com algumas mudanças de alianças devido a interesses imediatos. A visita na semana passada do rei Salman da Arábia Saudita a Moscovo faz parte destas mutações que nem sempre são percebíveis à primeira vista. Mas ela foi suficiente para o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, dizer: "Foi um verdadeiro ponto de mudança nas relações entre os dois países." O que é que isto quer dizer? Moscovo tem alinhado na região sobretudo ao lado do Irão e da Síria, países que a Arábia Saudita encara como inimigos. A visita demorou dois anos a ser concretizada.

 

A Rússia acredita que o dinheiro e a posição ideológica e religiosa saudita têm desempenhado um papel importante nos movimentos "jihadistas", e isso inclui a própria Chechénia, onde Moscovo teve de intervir militarmente no passado recente. Não deixa de ser curioso relembrar que, em 1926, a então URSS foi o primeiro país a reconhecer o novo estado da Arábia Saudita. Mas depois as relações foram-se esfriando, especialmente durante o período da Guerra Fria, onde Riade era um firme apoiante dos EUA. As guerras no Cáucaso e em especial na Chechénia, a partir de 1994, voltaram a pôr ambos os países em confronto, tal como a posição face ao Afeganistão. Já em Maio o homem-forte da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, tinha visitado Moscovo, abrindo caminho para esta visita do rei. O petróleo, e a queda dos preços, também impulsiona esta nova ligação entre Moscovo e Riade. É sobretudo o imprevisível papel dos EUA na região sob a administração Trump que causa mais nervosismo em Riade. E esta visita pode ser apenas um aviso com destino a Washington.

 

Myanmar: mais infra-estruturas

 

O ministro da Construção de Myanmar, U Win Khaing, disse no encontro da Asean que está a decorrer em Singapura que o seu país necessita de desenvolver as suas infra-estruturas para poder lidar com a emigração em massa para as cidades. O Governo tem estado a contactar potenciais parceiros como a China e o Japão, promovendo Myanmar como um "hub" para ligar a Sudoeste Asiático ao Sul da Ásia.  A China já investiu cerca de 10 mil milhões de dólares num porto de águas profundas e numa zona económica especial no estado de Rakhine, o palco do conflito entre os muçulmanos Rohingya e os budistas.

 

Arábia Saudita: compra armas aos EUA

 

O Departamento de Estado dos EUA aprovou a possível venda do sistema antimísseis THAAD à Arábia Saudita, por um valor de 15 mil milhões de dólares. Segundo os EUA, a venda "apoiará a política externa e os objectivos de segurança nacional dos EUA ao aumentar a segurança de um país amigo" e não alterará o balanço militar na região. Os EUA têm sido o maior vendedor de armas a Riade, a começar por caças F-15. A Arábia Saudita decidiu nos últimos dias comprar o sistema de defesa russo S-400 por vários biliões de dólares na sequência da visita do rei Salman a Moscovo.

 

Arábia Saudita: condenada pela ONU

 

A ONU incluiu a coligação militar liderada pela Arábia Saudita na lista negra de participantes que são responsáveis por atrocidades contra as crianças e referiu que durante a sua campanha no Iémen foi responsável pela morte de centenas de menores. Na lista da ONU também figuram os rebeldes houthis do Iémen e a Al-Qaeda na península arábica. O relatório diz que as forças da coligação liderada pelos sauditas foi responsável pela morte ou ferimento de 683 crianças e pelo ataque a dezenas de escolas e hospitais em 2016. 

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