O conto de Natal de Trump

O presidente Donald Trump e Haley insistem que os custos das operações da ONU estão insuflados e que há margem para alguns cortes. Mas o mundo recebe um retorno estrondoso com o investimento nas Nações Unidas.

Este Natal, a prenda que os Estados Unidos deram ao mundo foi um corte de 285 milhões de dólares no orçamento corrente das Nações Unidas (ONU). Tecnicamente, o orçamento corrente da ONU é o reflexo de um consenso entre os 193 Estados-membros, mas os Estados Unidos foram claramente o grande motor deste corte. De facto, Nikki Haley, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, acompanhou o anúncio, feito na véspera de Natal, com o aviso de que os EUA estariam a olhar para mais reduções.

 

Ebenezer Scrooge não teria feito melhor. Os cortes orçamentais vão fazer com que seja muito mais difícil para as agências da ONU evitarem guerras, ajudarem milhões de pessoas que estão deslocadas por causa dos conflitos, alimentarem e vestirem crianças famintas, lutar contras as doenças que surgem, fornecer água potável e saneamento e promover o acesso à educação e dar cuidados de saúde para os pobres.

 

O presidente Donald Trump e Haley insistem que os custos das operações da ONU estão insuflados e que há margem para alguns cortes. Mas o mundo recebe um retorno estrondoso com o investimento nas Nações Unidas e os Estados-membros deviam estar a investir bem mais, e não menos, nas suas organizações e programas.

 

Consideremos os valores. O orçamento corrente da ONU para um período de dois anos – 2018 e 2019 – será de 5,3 mil milhões de dólares – menos 285 milhões de dólares que no orçamento de 2016 e 2017. Os gastos anuais serão de cerca de 2,7 mil milhões de dólares. A percentagem norte-americana vai ser de 22%, ou cerca de 580 milhões de dólares por ano, o equivalente a 1,80 dólares por americano, por ano.

 

O que é que os americanos recebem por esses 1,80 dólares por ano? Para começar, o orçamento corrente das Nações Unidas inclui as operações da Assembleia-Geral, do Conselho de Segurança e do Secretariado (incluindo o escritório do Secretário-geral, o Departamento de Assuntos Económicos e Sociais, o Departamento de Assuntos Políticos e o pessoal administrativo). Quando uma ameaça grave à paz surge, tal como o impasse actual entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, é o Departamento de Assuntos Políticos das Nações Unidas que muitas vezes facilita a diplomacia nos bastidores, algo que é vital.

 

Além disso, o orçamento corrente da ONU inclui verbas para o Fundo para as Crianças da ONU (UNICEF), para o Programa para Desenvolvimento da ONU, para a Organização Mundial de Saúde, para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados, para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, para as entidades regionais (para a Ásia, África, Europa e América Latina), para o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, para o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas (para resposta a desastres), para a Organização Meteorológica Mundial, para o Gabinete da ONU para a Droga e Criminalidade, para a ONU Mulheres (pelos direitos das mulheres) e muitas outras agências, cada uma especializada em dar resposta a crises, conflitos, pobreza, desalojamento, riscos ambientais, doenças ou outras necessidades públicas.

 

Muitas das organizações da ONU recebem contributos adicionais "voluntários" de países que estão interessados em apoiar iniciativas especializadas de agências como a UNICEF e a Organização Mundial de Saúde. Afinal, essas agências têm um mandato global único, legitimidade política e a capacidade para operar em todas as partes do mundo.

 

A estupidez do ataque norte-americano à dimensão do orçamento da ONU é mais evidente através da comparação com o orçamento do Pentágono. Os EUA gastam actualmente cerca de 700 mil milhões de dólares por ano em defesa, ou cerca de dois mil milhões de dólares por dia. Assim, o orçamento corrente total das Nações Unidas, por ano, representa cerca de um dia e nove horas da despesa militar dos Estados Unidos da América. A percentagem dos EUA para o orçamento corrente da ONU equivale aproximadamente a sete horas dos gastos do Pentágono. Que desperdício.

 

Trump e Haley estão a apertar o orçamento das Nações Unidas por três motivos. O primeiro é para agradar à base política de Trump. A maioria dos norte-americanos reconhece o enorme valor da ONU e apoia-a, mas a ala mais à direita do eleitorado do Partido Republicano considera que a ONU é uma afronta aos Estados Unidos. O  Pew Survey, de 2016, indica que a aprovação pública dos norte-americanos em relação às Nações Unidas era de 64%, com apenas 29% a ter uma opinião desfavorável. Mas, por exemplo, o Partido Republicano do Texas pediu repetidamente para os EUA deixarem a ONU.

 

O segundo motivo é para que haja poupanças em alguns programas, o que é necessário em qualquer organização. O erro é reduzir o orçamento geral em vez de se proceder a uma relocalização de fundos e a um aumento da despesa dos programas de necessidade vital que lutam contra a fome e as doenças, apostam na educação das crianças e evitam conflitos.

 

O terceiro motivo, e o mais perigoso, para reduzir o orçamento das Nações Unidas é enfraquecer o multilateralismo em nome da "soberania" norte-americana. Trump e Haley insistem que os EUA são soberanos e, por isso, podem fazer o que querem, independentemente da oposição das Nações Unidas ou de qualquer outro grupo de países.

 

No seu discurso recente na sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas sobre Jerusalém, onde a maioria dos Estados-membros rejeitaram o reconhecimento unilateral feito pelos EUA de Jerusalém como capital de Israel, Haley disse ao resto do mundo: "os Estados Unidos vão colocar a sua embaixada em Jerusalém. É isso que a população americana quer que façamos e é a coisa acertada a fazer. Nenhuma votação realizada pelas Nações Unidas fará diferença em relação a isso".

 

Esta abordagem à soberania é extremamente perigosa. Obviamente, repudia o direito internacional. No caso de Jerusalém, as resoluções adoptadas pela Assembleia-Geral e pelo Conselho de Segurança declararam repetidamente que o estatuto final de Jerusalém é uma questão de direito internacional. Ao anunciar descaradamente o direito de anular o direito internacional, os EUA ameaçam as fundações da cooperação internacional conforme a Carta das Nações Unidas.

 

Ainda assim, outro perigo grave é para os Estados Unidos. Quando a América deixar de ouvir os outros países, o seu vasto poder militar e arrogância vão levar a frequentes desastres auto-inflingidos. Os que defendem a "América Primeiro", como Trump e Haley, não aceitam quando os outros países se opõem à política externa norte-americana; mas estes outros países estão frequentemente a dar bons e francos conselhos, que os EUA seriam sábios em dar atenção. A oposição do Conselho de Segurança à guerra no Iraque, liderada pelos americanos, em 2003, por exemplo, não tinha como objectivo enfraquecer os Estados Unidos, mas protegê-los, assim como ao Iraque e ao mundo, da raiva da América e da sua cegueira quanto aos factos.

 

"Bah! Treta!" disse Scrooge. Mas a questão de Charles Dickens era precisamente que Scrooge era o que mais perdia com a sua arrogância, mesquinhez e insolência.

 

Jeffrey D. Sachs, professor de Desenvolvimento Sustentável e de Políticas e Gestão de Saúde na Universidade de Columbia, é director do Centro para o Desenvolvimento Sustentável de Columbia e director da rede de soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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