Pedro Fontes Falcão
Pedro Fontes Falcão 25 de julho de 2017 às 22:45

O "corporate governance" e a solidão do n.º 1

A chefia não implica saber exercer liderança, pois infelizmente existem muitos chefes que são péssimos líderes, mas geralmente estão convencidos, pela tal autoconfiança e sensação de poder agora resultante da obtenção do cargo, de que são ótimos líderes.

Fui ver na passada semana um filme sobre a vida do Churchill nos dias antes do Dia D do desembarque na Normandia pelos Aliados em 1944. Não quero fazer publicidade ao filme, nem contar a sua história, mas apenas debruçar-me sobre momentos muito difíceis que os líderes atravessam e, para agravar a situação, por vezes, os atravessam de forma solitária.

 

A obtenção de cargos de chefia de topo traz aspetos positivos para as pessoas que os exercem, sendo um deles o sentirem-se mais poderosos e autoconfiantes apenas pelo facto de se terem tornado chefes. A chefia não implica saber exercer liderança, pois infelizmente existem muitos chefes que são péssimos líderes, mas geralmente estão convencidos, pela tal autoconfiança e sensação de poder agora resultante da obtenção do cargo, de que são ótimos líderes.

 

Geralmente, o público em geral olha para quem ocupa cargos de topo, especialmente em grandes organizações, e tendem a percecionar essas pessoas como poderosas, com sucesso, geralmente bem pagas, e que trabalham muitas horas, embora sem realizar um trabalho técnico, mas que "apenas" têm de ouvir opiniões e tomar decisões, geralmente já supostamente bem estudadas por quem apresenta as situações sobre as quais é preciso decidir. Ou seja, não parece ser muito duro.

 

Mas, muitas vezes, as pessoas tendem a esquecer-se da dureza de assumir as responsabilidades sobre as decisões tomadas, e, se nos focarmos apenas nos n.º 1 (CEO ou outra denominação) das empresas, da dureza de ser a pessoa que, para o bem ou para o mal, é quem tem a sua fotografia nos media sempre que se fala da empresa, mesmo quando se trata de um assunto negativo do qual o n.º 1 não tem responsabilidade nenhuma sobre o mesmo.

 

E o "toque final" é que geralmente há uma solidão do n.º 1 nesses momentos de decisão, especialmente nos mais difíceis, e que deve ser muito dura de suportar, como no caso de Churchill antes do Dia D.

 

É verdade que as pessoas têm a opção de não ser o n.º1 (embora tenha de haver um n.º1, e portanto alguém terá de aceitar o cargo), pelo que não quero transmitir a imagem de que eles se deveriam queixar e termos pena deles (eles também geralmente não precisam que tenhamos pena deles), mas é importante ter a noção de que a solidão e a carga da responsabilidade pesam muito nos n.º 1 e que muitas pessoas não o conseguiriam aguentar. E embora o n.º 2 possa ser também muito importante e ter muita responsabilidade, como a descrição das funções e o "corporate governance" o devem espelhar, neste aspeto é claramente diferente ser o n.º 1 ou o n.º 2…

Gestor e Docente Universitário

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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