André Macedo
André Macedo 11 de junho de 2017 às 20:17

O crime que deu à luz

Ouvidos os argumentos dos últimos dias sobre a EDP e as rendas excessivas dá-me logo vontade de não acreditar nos julgamentos sumários que são disparados à queima-roupa.
Parece não haver uma só alma que ponha em causa as deduções que nos são apresentadas como se fossem o resultado de uma investigação já finalizada. Oh, como é saboroso juntar o nome de António Mexia ao de Ricardo Salgado e Zeinal Bava, o tríptico do apocalipse económico-financeiro nacional.

Começo então por assumir que não sei se há rendas excessivas, apesar de os 320 milhões a pagar este ano pelo Estado serem um valor, digamos, simpático. Talvez haja rendas, sim, mas posso apenas suspeitar e, a partir daí, mergulhar no assunto e investigar - processo que leva tempo a dar frutos. Dizer que onde há lucros e muito dinheiro há corrupção parece-me superficial e até revelador do habitual rancorzinho que há sobre o êxito empresarial.

Um dos argumentos mais batidos neste assunto tem a ver com o investimento em publicidade e patrocínios da EDP - o caldo certo para que os os media fechem os olhos ao crime. É espantoso que também os jornalistas pensem assim, porque significa que somos todos venais. Não é verdade. Que a EDP tem uma poderosa máquina de comunicação é um facto, mas deduzir que daí resulta um jornalismo servil (mais servil do que noutras áreas informativas) é uma generalização tentadora mas absurda.

Já agora: ainda bem que a EDP investe em publicidade. Num país em que as empresas reduzem todos os anos os seus orçamentos e as pessoas se mostram cada vez menos interessadas em pagar para ver ou ler, o jornalismo - ou a cultura -- tem a ganhar com a receita que entra e ajuda a subsistir num país desolador. Durante anos eu fui diretor de jornais: nunca deixei de publicar seja o que for sobre a EDP, mesmo que a tal máquina de comunicação me fizesse sentir o seu peso. Mas deveria fazer o quê? Calar-se? Cada um faz o seu trabalho, ponto final parágrafo.

E mais: dizer que há rendas excessivas porque a troika disse que sim, que as havia, é outra dedução extraordinária. Não preciso recordar aqui os disparates da troika, a começar pela famosa desvalorização interna que nos iria enriquecer maravilhosamente, para mostrar que tendo a troika acertado numas coisas falhou noutras; logo não me serve como critério, embora seja um bom ponto de partida para que pensemos sobre o assunto.

Depois há a fragilidade dos reguladores, em particular da ERSE. Onde anda esta gente se o escândalo é tão gritante? Ah, desconfiam? Bom, isso não serve. Fizeram uns relatórios e calaram-se? Enunciaram os riscos e ficaram-se por aí? Ser regulador é difícil, mais ainda quando o confronto acontece com empresas poderosas como a EDP. Ainda assim, era e continua a ser preciso fazer bastante mais.

Sobra Manuel Pinho: o homem que aceitou dar aulas de energia na Universidade de Columbia sabendo (claro) que a cadeira era patrocinada pela EDP. Eticamente, horrível, sim; mas... corrupção? Se o facto é conhecido há quase dez anos, eu não consigo perceber a demora na investigação judicial. O que nos leva a este ponto. Já começaram as fugas de informação: visto assim, o processo parece limpinho.

Relatórios na gaveta, números martelados, a história perfeita, um estupendo crime de colarinho branco à custa do contribuinte. Só falta engavetar os culpados. Veremos se a história será assim tão simples.
Nunca é. 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico
A sua opinião11
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
revelador do habitual rancorzinho 13.06.2017

Concordo, é como quando dizem mal do Mesquita Machado em Braga, que fez enriquecer alguns construtores civis que tão importantes foram para o crescimento da cidade... lá por terem muito dinheiro parece-me superficial e até revelador do habitual rancorzinho dizer que houve corrupção. ;-)

Eticamente, horrível, sim; mas... corrupção? 13.06.2017

O filho de um responsável da área das Compras de uma Entidade Pública fazer uma prestação de serviços de 20 mil euros a uma empresa cuja Entidade Pública em que o Pai foi responsável pela adjudicação de um contrato de 1 milhão de euros é ... Eticamente, horrível, sim; mas... corrupção? ;-)

Jorge Cunha 12.06.2017

André
André
Não sei se as rendas foram ou não excessivas.
Sinceramente só sei uma coisa: que esses senhores foram constituidos ARGUIDOS!
E salvo se a Justiça endoidou...isso não é bom sinal.
Só admito a constituição de arguido havendo um bom número de provas credíveis.
E fico por aqui!

Anónimo 12.06.2017

Pois é..., pagamos a electricidade mais cara da Europa, mas como é um monopólio não podemos fugir ao assunto.
Mas assim que se põe em causa o dito monopólio logo aparecem arautos a defender que não, olhe que não, olhe que não há rendas excessivas!!!!!
É como as bruxas..., que las hai las hai!!!!

ver mais comentários