O défice de Trump

Se a presidência de Trump contrair grandes dívidas uma subida acentuada nas taxas de juro mundiais pode seguir-se facilmente, colocando muita pressão sobre os pontos fracos que existem no mundo e sobre os custos de financiamento das empresas nos mercados emergentes.

É um mito do pós-crise financeira que os governos conservadores focados na austeridade são sempre favoráveis à prudência orçamental, enquanto os governos progressistas vêm os grandes défices como o maior almoço grátis do mundo. Na perspectiva simplista - apesar de ter provavelmente uma pequena parte de verdade - a verdade subjacente à política económica dos défices fica para trás.

 

A realidade é que quando uma parte tem um controlo firme sobre o Governo, tem um incentivo poderoso para endividar-se de forma a financiar as suas prioridades, sabendo que não será necessariamente ele quem as vai pagar. Assim é esperado que a administração de Donald Trump, conservador ou não, faça um uso agressivo dos défices orçamentais para financiar as suas prioridades no que diz respeito a impostos e despesa.

 

O enquadramento mais preciso sobre o pensamento relativamente aos défices orçamentais dos governos nas democracias foi proposto no final da década de 1980 pelos académicos italianos Alberto Alesinae Guido Tabellini, e também, praticamente em simultâneo, pelos suecos Torsten Persson e Lars Svensson. Apesar das suas abordagens divergirem ligeiramente nos detalhes, a ideia base é a mesma: tu dás dinheiro aos teus amigos enquanto puderes. Se houver menos dinheiro para repartir quando o partido na oposição tiver a sua oportunidade no poder, bem, isso é má sorte.

 

Basta apenas recordar a história económica recente dos Estados Unidos para confirmar a visão do modelo italiano/sueco – e ver o absurdo que há nas reivindicações que apontam que os Republicanos têm sempre o objectivo de equilibrar o orçamento enquanto os Democratas tentam sempre gastar além das possibilidades do país. Na década de 1980, o herói conservador Ronald Reagan estava disponível para tolerar um défice grande para financiar o seu ambicioso plano de corte de impostos e fê-lo numa era em que os empréstimos não eram baratos.

 

No início da década de 2000, outro presidente Republicano, George W. Bush, basicamente seguiu a cartilha de Reagan, cortando novamente os impostos e elevando o défice. Em 2012, em pleno impasse relativamente ao défice e à divida nacional, um impasse notado também entre o Congresso, controlado pelos Republicanos, e o presidente Democrata Barack Obama, o candidato presidencial Republicano Mitt Romney proferiu um plano económico que apresentava défices elevados para financiar os cortes de impostos e gastos militares mais elevados.

 

Do outro lado do expectro, o presidente democrata Bill Clinton, durante aquilo que muitos dos economistas consideram ter sido uma presidência extremamente bem-sucedida, colocou o Governo numa situação de excedente. De facto, no final da década de 1990, alguns investigadores ponderavam como é que os mercados internacionais funcionariam se o Governo norte-americano fosse gradualmente cancelando a sua dívida. Os cortes nos impostos subsequentes, levados a cabo por Bush, e as guerras para as quais não havia financiamento garantiram que isto nunca mais se tornou um problema.

 

O que é que evita que os défices atinjam uma espiral ascendente à medida que os partidos alternam no poder e pedem empréstimos para ajudar os seus apoiantes? Nas democracias eficientes, como é o caso dos Estados Unidos e do Reino Unido, há uma memória colectiva sobre os problemas causados por uma dívida elevada para que seja permitido algum apoio a reduções periódicas dos rácios de dívida/PIB. Mas mesmo nos EUA e no Reino Unido, os défices orçamentais não são formas de estímulos económicos estéreis e neutrais, como numa aula sobre o modelo Keynesiano.

 

Claro que num mundo em constante mudança, os custos de ter um elevado fardo de dívida pode mudar com o tempo. Depois de décadas, as taxas de juro estão subitamente a começar a subir.

 

Atitudes diferentes em relação ao risco são um factor fundamental na controvérsia sobre a qual é a quantidade ideal de estímulos. Até há pouco tempo, muitos comentadores económicos de esquerda argumentavam a favor de uma elevada quantidade de estímulos nos Estados Unidos, embora agora pareça que mudaram rapidamente de ponto de vista (mais concretamente na noite em Trump foi eleito). Ninguém sabe em concreto qual o ponto médio razoável relativamente a dívida e estímulos.

 

Thomas Sargent, economista laureado com um Nobel, entre outros, argumentou recentemente que o nível ideal de dívida no caso norte-americano é de facto muito próximo de zero, embora não recomende tentar alcançar esse nível no curto prazo, dado que a dívida do Governo dos Estados Unidos está agora acima dos 100% do PIB. A recomendação de Sargent contradiz a visão (exposta recentemente na coluna Líderes da revista Economist) que, em vez de estabilizar a dívida, todos os países desenvolvidos devem ter como objectivo imitar o Japão (onde a dívida líquida é superior a 140% do PIB, o rácio mais elevado entre as economias desenvolvidas).

 

O que importa não é apenas o nível de dívida mas também como é gerida – uma questão que abordei num comentário recente focado na combinação correcta para os pedidos de empréstimos de curto e de longo prazo dos Governos. Alguns, incluindo Robert Skidelsky, parecem pensar que a discussão sobre a gestão da estrutura da dívida dos governos é, de alguma forma, um pretexto para orçamentos apertados e austeridade. Mas se as taxas de juro dispararem na era Trump (e podem), o governo dos Estados Unidos vai desejar ter optado por menos crédito de curto prazo e mais crédito de longo prazo.

 

Se a presidência de Trump contrair grandes dívidas – acompanhadas por um crescimento mais rápido e elevado da inflação – uma subida acentuada nas taxas de juro mundiais pode seguir-se facilmente, colocando muita pressão sobre os pontos fracos que existem no mundo (por exemplo, os empréstimos públicos italianos) e sobre os custos de financiamento das empresas nos mercados emergentes. Muitos países vão beneficiar do crescimento dos Estados Unidos (se Trump não criar simultaneamente barreiras comerciais). Mas quem estiver a contar que as taxas de juro se mantenham baixas, porque os governos conservadores são avessos a défices, precisa de uma lição de história. 

 

 

Kenneth Rogoff, antigo economista-chefe do FMI, é professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade de Harvard.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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