Fernando  Sobral
Fernando Sobral 16 de abril de 2017 às 20:00

O défice e o Tamagotchi 

A nostalgia é um valor seguro. Seja na política, seja na cultura popular. Citar Winston Churchill é sempre uma mais-valia para qualquer político.

Pelo contrário, não se imagina ninguém de bom senso a recuperar Josef Estaline como símbolo do que quer que seja. Na cultura popular sucede o mesmo. De vez em quando, quando as ideias escasseiam, é bom tirar o pó a um sucesso do passado. Hollywood faz isso com os super-heróis. E agora, a pretexto do seu 20.º aniversário, está a causar furor no Japão o relançamento do Tamagotchi. Lembram-se deste adorável bonequinho? Era uma mascote que necessitava de mimos para ser feliz e não protestar de forma demasiado audível. Se não fosse bem tratado "morria" e regressava ao seu planeta. O défice português é o nosso Tamagotchi muito ternurento. Ao longo dos séculos temo-lo alimentado com prazer. As suas necessidades são inesgotáveis e, quando o deixamos crescer, não é ele que grita: é quem nos empresta dinheiro.

 

A saga do valor do défice de 2016 mostra como o nosso Tamagotchi é rabugento. A Fitch, esse portento da severidade e da infabilidade, chegou a prever a meio do ano passado que ia ser de 3,4%. Errou em toda a linha. Mas não é por isso que os governos e as empresas a colocam com notação de "lixo". Contradições do sistema. O certo é que de erro de análise em erro de apreciação, o INE veio desvendar que o défice foi de 2,0%. É um feito, mesmo com medidas extraordinárias e cortes no investimento público. E quando o Governo vem dizer que tentará o défice de 1% em 2018, já se pode acreditar em tudo. Não se sabe como se alimentará o nosso Tamagotchi para ele se comportar bem e atingir esse valor, mas o que sobra daqui é que António Costa encontrou aqui mais um ponto a seu favor. Consegue provar que, à esquerda, o despesismo não é a palavra de ordem. E que o rigor não é propriedade da direita. Não deixa de ser curioso que, num momento em que só se fala em cartilhas, o Tamagotchi pareça estar sereno ao ser alimentado pela esquerda.

 

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