Andrew Sheng
Xiao Geng
Andrew Sheng | Xiao Geng 15 de maio de 2017 às 14:00

O desafio sino-americano do emprego

A China e os Estados Unidos, enquanto parceiros comerciais e os dois maiores mercados de consumo do mundo, podem fazer muito para se ajudarem mutuamente na criação de empregos.

A ascensão de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos envolveu mais do que um pequeno ataque à China. No entanto, com a visita do presidente chinês Xi Jinping à propriedade de Trump na Flórida, parece que o status quo na relação bilateral - crucial para o comércio global, crescimento e estabilidade - será mantido. Isso pode ser uma boa notícia para os trabalhadores chineses e americanos.

No encontro, Xi reiterou o compromisso da China de manter um relacionamento positivo com os Estados Unidos. "Temos mil razões para manter boas relações entre a China e os Estados Unidos", afirmou, "e nenhuma razão para as estragar". Trump, por sua vez, aceitou o convite de Xi para visitar a China em breve.

Sobre o comércio, Trump e Xi concordaram com um plano de 100 dias para discussões sobre a redução do défice comercial dos Estados Unidos com a China. Além disso, os Estados Unidos aceitaram a proposta da China de reformular o quadro para o envolvimento bilateral, criando o Diálogo Abrangente EUA-China, composto por quatro subdiálogo: diplomacia e segurança, questões económicas, aplicação da lei e cibersegurança, e assuntos sociais e culturais.

O entendimento entre Xi e Trump reflectiu um reconhecimento sóbrio dos riscos domésticos e internacionais que os seus países enfrentam. Ambos pareceram reconhecer que uma relação estável entre os EUA e a China é necessária para permitir que eles se concentrem nos seus respectivos desafios.

Para Xi, esses desafios incluem reformas estruturais do lado da oferta para combater a corrupção, a poluição, o aumento da dívida, o excesso de capacidade e a baixa produtividade. Quanto a Trump, o principal imperativo é superar os obstáculos políticos e institucionais ao cumprimento das suas promessas, incluindo a redução dos impostos e o investimento em infra-estruturas.

Mas há um desafio fundamental que ambos os líderes têm em comum: empregos. Os avanços tecnológicos, especialmente em automação e robótica, estão a colocar um número crescente de empregos sob pressão. Nos Estados Unidos, essa pressão foi uma força motriz por trás da eleição de Trump (embora tenha sido frequente e desproporcionalmente atribuída aos imigrantes e aos exportadores dos países em desenvolvimento, incluindo a China). Mas também na China, a insegurança no emprego, relacionada com a tecnologia, pode representar uma ameaça à estabilidade política.

De acordo com um relatório divulgado pela administração do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no ano passado, entre 9% e 47% dos empregos serão ameaçados pela automação durante a próxima década. Mais recentemente, a McKinsey divulgou o seu próprio relatório sobre o tema, no qual estima que cerca de 60% de todas as ocupações poderão sofrer uma automação de 30% ou mais das suas actividades constituintes.

Agora, os líderes mundiais - começando por Trump e Xi - devem descobrir como sustentar o emprego, à medida que os trabalhos existentes desaparecem. O estudo da administração Obama recomendou uma abordagem de três vertentes: o investimento em inteligência artificial (para tirar proveito dos seus benefícios); educação e formação dos trabalhadores para os postos de trabalho do futuro; e apoio aos trabalhadores em transição. Tudo isso está correcto, mas falta um imperativo: assegurar que são criados novos empregos suficientes.

Tanto na China como nos EUA, as disrupções ao nível do emprego estão sujeitas a desequilíbrios sectoriais e geográficos. Os carros sem motorista, por exemplo, ameaçarão entre 2 e 3 milhões de empregos nos EUA. Essas perdas de emprego vão atingir trabalhadores em alguns sectores - começando com o transporte de pessoas e mercadorias – de forma particularmente violenta.

Da mesma forma, os efeitos da automação sobre os trabalhadores das fábricas tendem a concentrar-se em regiões específicas. O chamado Rust Belt, que já se pôde gabar do seu poderoso sector industrial, já está a sofrer as consequências da automação. Na China, é a região nordeste que está a ser duramente atingida pelas perdas de empregos, devido à supercapacidade e ao encerramento de indústrias pesadas poluidoras e deficitárias.

Mas a assimetria que mais afecta o desafio da criação de emprego pode ser entre instituições e políticas. Aumentos acentuados no emprego público são, em geral, financeiramente insustentáveis e até mesmo contraproducentes, pois podem afastar o sector privado. No entanto, as grandes empresas - privadas ou estatais - estão em modo de redução de empregos, impulsionadas por pressões de lucro ou de eficiência. Isso coloca uma grande responsabilidade sobre as pequenas e médias empresas (PME).

As PME da China são, certamente, capazes de o fazer. De facto, mesmo que as grandes empresas não estivessem actualmente a despedir trabalhadores, estariam em desvantagem face a PME mais eficientes e inovadoras numa economia transformada por plataformas interactivas da internet.

Consideremos o comércio electrónico. Como aponta um relatório recente do Alibaba Research Institute, o comércio electrónico está a transformar a relação entre clientes e empresas. O que antes era um modelo de oferta e distribuição das empresas para os consumidores tornou-se muito mais interactivo, com os clientes a darem um feedback constante, ao qual as empresas se devem adaptar. 

Grandes plataformas da internet como a Alibaba podem usar a análise de dados para monitorizar tais mudanças. Mas as grandes empresas estabelecidas não podem responder a essas mudanças - por exemplo, ajustar o que estão a produzir ou a forma como fazem a distrubuição - com a mesma rapidez e flexibilidade do que as PME.

Apesar do potencial das PME para produzir inovações valiosas e criar empregos, o sector tem sido negligenciado pelos decisores políticos. Por exemplo, os incentivos fiscais não têm em conta as externalidades positivas das PME em termos de criação de emprego e de inovação. E, devido aos riscos de falhas individuais, as PME enfrentam frequentemente custos mais altos no crédito bancário, particularmente na China.

A China e os Estados Unidos, enquanto parceiros comerciais e os dois maiores mercados de consumo do mundo, podem fazer muito para se ajudarem mutuamente na criação de empregos. Os EUA têm a tecnologia, o talento e a experiência reguladora para continuar a liderar o caminho da inovação, apoiando a criação de emprego em sectores e actividades novos e orientados para o futuro. E o movimento da China em direcção a uma economia conduzida pelo consumo, impulsionada por um sector de serviços cada vez mais moderno, provavelmente impulsionará a procura por produtos e serviços americanos de alta qualidade e inovadores.

 

O resultado seria uma relação comercial muito mais equilibrada e, potencialmente, uma nova parceria global para o desenvolvimento. Tendo isso em consideração, só se pode esperar que Trump mantenha o espírito cooperativo demonstrado no recente encontro na Flórida.

 

Andrew Sheng é membro do Asia Global Institute da Universidade de Hong Kong e do Conselho Consultivo de Finanças Sustentáveis da UNEP. Xiao Geng, presidente do Hong Kong Institution for International Finance, é professor na Universidade de Hong Kong.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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Adão 20.05.2017

Parabéns pelo site, muito informativo!
Vamos confiar em tempos melhores para os trabalhadores.
http://locauempregos.net/

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