Leonel Moura
Leonel Moura 03 de Novembro de 2016 às 20:05

O dia seguinte

É pouco provável que Donald Trump vença as eleições. Mas pode acontecer, dada a peculiar democracia americana e sobretudo o estado de alienação a que chegou uma parte significativa da população.

Embrutecidos pela religião e pelos media muitos americanos aderem a ideias francamente retrógradas, contraditórias, claramente prejudiciais para as suas próprias existências.

 

A sociedade anda para trás e para a frente, sabendo-se perfeitamente o significado de cada um destes sentidos. A ascensão do nazismo foi um retrocesso civilizacional, enquanto a invenção da pílula contracetiva representou um enorme avanço na libertação da mulher. É fácil entender estas coisas ainda que tão díspares. Pelo menos quando há racionalidade. Ora, estamos a atravessar um momento histórico onde prolifera a irracionalidade, quer através das múltiplas religiões e crenças, quer porque o tipo de informação que nos chega a cada minuto, por tantos canais, lança a confusão sobretudo nas mentes mais débeis. Uma enorme quantidade de falsas notícias, manipulações de toda a ordem, mentiras descaradas, inunda as redações de todos os órgãos de informação e impera nas redes sociais. O jornalismo é cada vez mais uma forma de literatura, uma ficção, e menos a produção de informações fidedignas.

 

É assim que temos hoje um mundo que gera os mais extraordinários avanços científicos e tecnológicos e ao mesmo tempo reproduz impressionantes arcaísmos.

 

A eleição presidencial norte-americana é um bom exemplo. Muitos americanos e ainda mais não-americanos terão ficado surpreendidos com o baixo nível da campanha de Trump. Não tanto pela sua personalidade grotesca, mas por haver tanta gente a segui-lo. Um dos países mais avançados do mundo, uma das mais importantes economias do planeta, revela que tem uma percentagem muito significativa da sua população atrás de um alucinado, um tonto, um perigoso demagogo que insulta tudo e todos e que promete, se for eleito, antagonizar o mundo. Como muito bem afirma a campanha de Hillary Clinton: "Alguém está disposto a entregar o poder nuclear a este homem?" Pelos vistos muita gente está.

 

O maior problema destas eleições não é por isso o seu resultado. Seria uma enorme surpresa e um susto para o mundo se Trump ganhasse. Ainda que, nesse caso, o sistema não o deixaria governar, a começar pelos republicanos. A sua passagem pela presidência seria curta e o dano mínimo.

 

O maior problema começa no dia a seguir à eleição de Hillary Clinton. A América está francamente doente e cabe perguntar "como foi possível chegar a isto?" Uma parte significativa da sociedade é decadente, atrasada, ignorante, isolacionista, incapaz de se enquadrar no mundo global e responder aos desafios da acelerada evolução tecnológica. Não por acaso os Estados Unidos estão a perder terreno em várias frentes tecnológicas. Ideias primitivas, como o fanatismo religioso ou a falsa livre iniciativa, já que os Estados Unidos são dos países mais intervencionistas do mundo, impedem o desenvolvimento social, cultural e político.

 

As eleições revelam a falência do sistema de ensino norte-americano. Que criou gente tão ignorante capaz de acreditar nos maiores disparates. Como dizia uma jovem apoiante de Trump: prefiro Deus a oxigénio, porque este só foi inventado no século XVIII e Deus é desde sempre.

 

Os Estados Unidos têm das melhores universidades do planeta, mas têm igualmente, em nome de uma pretensa liberdade, muita escola onde se administra um ensino medieval. Não vai ser fácil.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
surpreso Há 4 dias

Então lá conseguiste vender a bonecada ao "xuxa" Medina?A Joana ,em grosso e tu em caganitos.Mamando

Anónimo Há 4 dias

Se o Chavez ganhou na Venezuela porque razão o Trump não podera ganhar nos EUA? Alienação por alienação não existem diferenças.