Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 11 de dezembro de 2016 às 19:15

O diabo cancelou a viagem

Após anos de baixas expectativas, em que a narrativa dominante era de os portugueses viverem acima das possibilidades e por isso terem de se ajustar, a mudança do ciclo político ocorrida em finais de 2015 apagou o discurso e 2016 foi menos pesado.

Antes das férias de Verão, o ex-primeiro-ministro alertou para a vinda do diabo. Belzebu parece ter cancelado a viagem este ano, pode voltar a qualquer momento, mas para já quem vive num inferno político é Passos Coelho, distante do poder e com a oposição interna cada vez mais impaciente.

 

Registou-se mais consumo e do lado externo a baixa do petróleo permitiu uma substancial poupança, enquanto as empresas aumentaram as exportações. A recuperação económica continua anémica, a banca ainda é um icebergue de problemas, do qual a recapitalização da Caixa é apenas a face visível, o Estado aumenta o endividamento, mas o país que até foi o improvável campeão europeu de futebol aguenta com uma geringonça que aumentou rendimentos aos pensionistas e funcionários públicos e tem em Belém um Presidente campeão absoluto de popularidade, que distribui afectos e "selfies".

 

Há um sector que tem razões para celebrar: o turismo. Provavelmente o melhor ano de sempre em receitas. O Algarve registou um Verão em cheio. O terrorismo afastou milhares de turistas do mediterrâneo oriental e do Norte de África e o litoral sul de Portugal foi particularmente beneficiado. Mas o fenómeno dos viajantes das companhias de aviação "low-cost" invadiu, em quase todas as estações, os centros históricos de Lisboa e Porto. E não são só os hotéis e restaurantes a facturar. Há novas áreas de negócio e novos problemas, como o excesso e os incómodos gerados pelo alojamento local nas duas metrópoles.

 

No lado externo, nem tudo foram rosas. As empresas e os milhares de pessoas que recentemente contaram com Angola como antídoto contra a crise lusa tiveram ainda mais complicações. Quebra de encomendas, dificuldades na cobrança e salários em atraso marcaram o ano.

 

Com o desemprego ainda em níveis perigosos, mas a baixar, e um PIB a passo de caracol, apesar do desempenho razoável no terceiro trimestre, elevado endividamento do Estado, empresas e famílias, com a banca a necessitar de injecções milionárias de capital, Portugal continuará a sofrer calafrios nos próximos anos. Os factores determinantes que irão decidir a evolução deste país continuarão a ser os externos.

 

Sem coragem para reformar a máquina do Estado, num país cada vez mais envelhecido e endividado, mais tarde ou mais cedo Portugal cairá num novo resgate externo. Nesse dia o diabo voltará, mas neste país parece que ninguém está muito preocupado com o futuro. No presente e no futuro mais imediato, do logo, amanhã e depois, que pode ser também o próximo ano e o seguinte, tudo vai depender do fio que nos liga aos mercados: a nota de "rating" da subitamente relevante, por causa de Portugal, DBRS, e da boa vontade do BCE, credor relevante e o dono da torneira que mantém este país a funcionar em estado de aparente estabilidade.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

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mais votado Anónimo 11.12.2016

O diabo cancelou a viagem, ou seja, o poucochinho cancelou o investimento, cativou a despesa, adiou pagamentos, recorreu a perdões fiscais... O diabo está aí, disfarçado em forma de excel!

comentários mais recentes
Skizy 11.12.2016

O diabo adiou a viagem, isto porque o BCE estendeu a compra de divida até final de 2017, mas a partir de março de 2017 os juros da dívida vão subir.
Além disso o petróleo deve ir para os 65 dólares, com o corte de produção, por isso é melhor não "embandeirar em arco"

Anónimo 11.12.2016

O diabo cancelou a viagem, ou seja, o poucochinho cancelou o investimento, cativou a despesa, adiou pagamentos, recorreu a perdões fiscais... O diabo está aí, disfarçado em forma de excel!