Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 10 de julho de 2017 às 20:39

O diabo e o regime

O diabo esconde-se nos pormenores. Quando se confunde a legitimidade numérica com legitimidade política, quando se faz o eleitorado dizer o que não disse, escondeu-se o diabo nos pormenores. Mas ele vai aparecer. Aparece sempre.

A FRASE...

 

"O diabo foi o principal responsável. Acabou mesmo por vir, talvez zangado, por terem zombado dele. Vem sempre."

 

Daniel Bessa, Expresso, 8 de Julho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

O regime democrático depende dos eleitores para que seja assegurada a sua regulação, com as eleições a servirem para afastar os que falharam, sem que seja necessário recorrer à violência para os substituir por outros. E porque os eleitores têm de ser mobilizados e esclarecidos para que a sua escolha seja informada, os debates políticos são oportunidades de regeneração dos sistemas partidários, que as eleições seguintes irão legitimar.

 

Estas regras, simples e permanentes (têm de ser simples para serem compreendidas por todos e para que não sejam manipuláveis por habilidosos, têm de ser permanentes para que os processos de purificação e regeneração possam estar sempre operacionais), são postas em causa nas sociedades divididas, em que a radicalização das relações e dos debates políticos polariza as sociedades em dois grupos praticamente iguais (votações de 52% contra 48% colocam o vencedor dentro da margem de erro de uma sondagem), com consequências perversas. A bipolarização radical bloqueia o eleitorado (que não pode mudar o voto porque não pode passar para o outro lado sem violar as suas convicções) e a decisão política (que não pode estabilizar as linhas de orientação política, porque a maioria é demasiado pequena para apoiar as decisões políticas e a minoria é demasiado grande para se submeter a decisões políticas com que não concorda). As sociedades divididas e as democracias radicalizadas dos Estados Unidos, de Inglaterra, de França, da Holanda ou de Itália oferecem os exemplos, simples e permanentes, do que significa violar as regras, simples e permanentes, do pluralismo democrático.

 

O diabo esconde-se nos pormenores. Quando se confunde a legitimidade numérica com legitimidade política, quando se faz o eleitorado dizer o que não disse, escondeu-se o diabo nos pormenores. Mas ele vai aparecer. Aparece sempre.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
ACosta PM É OBRA DO DIABO 10.07.2017

E o Marcelo PR também.

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