O dilema monetário de Trump

Os mercados accionistas irão, sem dúvida, favorecer as propostas de Donald Trump no sentido de flexibilizar a política orçamental, de reduzir os regulamentos para as empresas e para o sector financeiro e de cortar nos impostos.

Quando Donald Trump derrotou Hillary Clinton nas eleições presidenciais norte-americanas, esperava-se uma resposta negativa imediata por parte do mercado. Mas, no dia seguinte, a inversão para a baixa do mercado acabou por ser de curta duração, tendo regressado a terreno positivo.

 

As bolsas norte-americanas e os juros das obrigações escalaram após o discurso de vitória de Trump, que pareceu indicar que ele estaria a mudar de rumo para o centro, algo que os investidores tinham esperado que ele fizesse no Verão, após ter conseguido a nomeação como candidato na convenção do Partido Republicano e iniciado a campanha eleitoral propriamente dita, depois das primárias. No seu discurso, Trump prometeu ser um Presidente para todos os americanos, elogiou Hillary Clinton pelos seus anos passados ao serviço do Estado e comprometeu-se a implementar vastas políticas de estímulos orçamentais centradas nos gastos em infra-estruturas e na redução de impostos para as empresas e para os mais abastados.

 

Os mercados vão dar a Trump o benefício da dúvida, por agora; mas os investidores estão a ver quem é que ele nomeará para a sua Administração, que formato é que terão na realidade as suas políticas orçamentais e que rumo traçará para a política monetária.

 

Os mercados talvez estejam a observar a política monetária mais atentamente. Durante a sua campanha, Trump ameaçou a independência da Reserva Federal norte-americana e lançou críticas à presidente da autoridade monetária, Janet Yellen. No entanto, Trump é um magnata do imobiliário, pelo que não podemos assumir de imediato que ele é um autêntico falcão da política monetária e não uma pomba. A retórica da sua campanha pode ter sido dirigida no sentido de seduzir a base do Partido Republicano, bastante hostil à Fed e repleta de defensores do ouro.

 

Trump poderá nomear falcões (linha dura) para os dois assentos no conselho da Fed que estão actualmente vagos e certamente substituirá Yellen quando o seu mandato terminar em 2018. Mas é pouco provável que a obrigue a demitir-se antes de tempo, pois os mercados puniriam essa óbvia violação da independência do banco central.

 

Mesmo que Trump escolha um falcão para substituir Yellen, o seu nomeado será apenas um primus inter pares no Comité Federal do Mercado Aberto (FOMC - Federal Open Market Committee). O sucessor de Yellen não poderá chegar e simplesmente impor a sua visão aos sete membros do conselho de governadores e aos cinco presidentes das Fed regionais que compõem o FOMC.

 

Apesar de a Fed se ter assemelhado a uma monarquia absoluta sob a tutela do ex-presidente Alan Greenspan, acabou por se parecer mais uma monarquia constitucional com o sucessor de Greenspan, Ben Bernanke. Sob as rédeas de Yellen, talvez possa ser descrita como uma república democrática. Esta transformação não pode ser revertida: cada membro do FOMC tem opiniões sólidas sobre que direcção deve tomar a política monetária e cada um deles está disposto a discordar sempre que necessário.

 

Isto significa que um falcão radical nomeado por Trump poderá acabar por ficar em minoria e ser sistematicamente superado em votos pela maioria moderada (as pombas) que compõem o FOMC. É claro que Trump poderá, com o tempo, ir alterando a composição do conselho da Fed, nomeando novos governadores quando Stanley Fischer, Lael Brainard, Daniel K. Tarullo e Jerome H. Powell terminarem os seus mandatos. Mas se ele seguir esse rumo, o mercado continuará a seguir as acções da Fed. Se o contínuo baixo crescimento e baixa inflação não justificarem rápidos aumentos das taxas de juro, uma Fed de linha dura que suba os juros directores de qualquer das formas irá confrontar-se com uma dura resposta disciplinadora do mercado – e, consequentemente, o mesmo acontecerá a Trump.

 

Além disso, uma linha mais dura prematura e excessiva iria fortalecer o dólar norte-americano e aumentar fortemente o défice comercial dos Estados Unidos, minando o objectivo declarado de Donald Trump de criar empregos e de melhorar os rendimentos da sua base eleitoral da classe operária. Se Trump se preocupa com a sua base eleitoral – ou se, pelo menos, quiser evitar que tenham uma reacção política hostil – deverá nomear governadores da Fed que sejam de linha moderada e que favoreçam políticas monetárias flexíveis que enfraqueçam o dólar. Ironicamente, os nomeados do Presidente Barack Obama, como Brainard e Tarullo, são na verdade ideais para a agenda de Trump.

 

Se Trump efectivamente optar por uma abordagem mais dura à política monetária, isso terá um impacto ambíguo sobre o dólar, devido aos efeitos das suas outras propostas que promovem o enfraquecimento da nota verde. Uma política orçamental mais flexível e uma política monetária mais apertada deverão, tal como aconteceu no primeiro mandato do ex-presidente Ronald Reagan, fortalecer o dólar; mas se Trump empurrar os EUA para o proteccionismo, irá gerar riscos de cauda económicos e geopolíticos que debilitarão o dólar e intensificarão o risco-país dos EUA.

 

Da mesma forma, as políticas orçamentais de Trump poderão igualmente enfraquecer o dólar ao longo do tempo – após uma significativa valorização inicial –, uma vez que os gastos no défice substancialmente mais elevado teriam de ser financiados através de empréstimos baratos ou da emissão de Obrigações do Tesouro que aumentariam o risco soberano dos Estados Unidos. O impacto líquido destes factores sobre o dólar dependerá inteiramente da amplitude da flexibilização da política orçamental e, inversamente, da proporção da rigidez da política monetária.

 

O mix de políticas proposto por Trump terá também um impacto ambíguo – e modesto – sobre o crescimento se o Presidente eleito nomear falcões para a Fed. Uma política orçamental mais flexível ajudará o crescimento económico de curto prazo; mas uma política monetária apertada contrariará esses ganhos. Do mesmo modo, se Trump realmente quiser redistribuir os rendimentos do capital para o trabalho, e dos lucros corporativos para os salários (e trata-se de um grande "se"), as suas políticas poderão promover o consumo; mas as suas políticas populistas e proteccionistas minarão a confiança dos empresários e, por extensão, as despesas de capital, ao mesmo tempo que diminuirão o poder de compra dos consumidores pela via de uma maior inflação.

 

Os mercados accionistas irão, sem dúvida, favorecer as propostas de Donald Trump no sentido de flexibilizar a política orçamental, de reduzir os regulamentos para as empresas e para o sector financeiro e de cortar nos impostos. Contudo, os investidores manter-se-ão vigilantes face às tentativas de proteccionismo, às críticas a Wall Street e aos imigrantes e a uma política monetária dura e excessivamente agressiva. Só o tempo e o mercado dirão se Trump encontrará o equilíbrio adequado. 

 

Nouriel Roubini É presidente da Roubini Macro Associates e professor de Economia na Stern School of Business, da Universidade de Nova Iorque.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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comentários mais recentes
pinheiro Há 1 semana

Vocês, economistas, são piores que os treinadores de bancada dos cafés portugueses.
Não acertam uma!
É que é mesmo verdade. Não acertam uma!
Nem com Brexits nem com Trumps.
Mais valia estarem calados do que a fazer política mascarada de ciência.