Francisco Seixas da Costa
Francisco Seixas da Costa 21 de setembro de 2017 às 20:45

O discurso da América 

Se há algo que ganhamos com Trump é o fim dos eufemismos legitimadores com que, muitas vezes, vimos a América embrulhar algumas das suas políticas mais brutais. 

Não partilho a visão de quantos se chocaram com o discurso de Donald Trump nas Nações Unidas. Nem entendo que alguma coisa do que afirmou possa ser lida num registo de escândalo. Aquilo que o Presidente americano expressou no plenário da assembleia-geral acabou por ser uma boa mostra do que é a agenda atual da sua administração, estabilizadas que foram algumas variáveis que o tempo obrigou a redefinir, a principal das quais, naturalmente, tem que ver com a Rússia.

 

A agenda americana começa a fixar-se na expressão arrogante do seu poder nacional perante o mundo, ao serviço da consagração de uma obsessiva diplomacia de interesses próprios. O "America first" significa a prevalência dos negócios sobre os valores, mesmo que isso coloque em questão algum património moral que os EUA, com altos e baixos, tenham conseguido historicamente criar. A dimensão multilateral dessa agenda será sempre feita "à la carte", seguindo essa poderosa lógica de interesses. Se há algo que "ganhamos" com Trump é a clareza, o fim dos eufemismos legitimadores com que, muitas vezes, vimos a América embrulhar algumas das suas políticas mais brutais, disfarçando o seu poder.

 

A candura com que Trump diz que cada país deve lutar pelos seus interesses, como os Estados Unidos se propõem fazer, é uma cínica falácia que esconde que, num mundo de poderes em competição aberta, não mediado por estruturas multilaterais que regulem a diferente capacidade de expressão dos interesses, o poder dominante é aquele que dita as regras do jogo.

 

Nesta conjuntura, a Coreia do Norte dá a Trump um belo pretexto para revelar a matriz jingoísta do seu discurso. E permite-lhe juntar, no elenco de ameaças, os inimigos de Israel (o Irão e o Hezzbolah), sossegando de caminho uma assustada Arábia Saudita (a que Obama tinha voltado as costas), com a Síria, o Daesh e os talibã afegãos, com naturalidade, a comporem o resto do pacote da diabolização. Com esta agenda, o complexo militar-industrial tem assegurado o essencial do "procurement", em casa e nos balcões de venda externa de armamento. Venezuela e Cuba compõem o ramalhete dos ódios - terreno que, aliás, foi objeto de uma singular incursão ideológica no texto lido por Trump.

 

Um parêntesis para assinalar que ficou mais do que aberta a porta para um afastamento dos EUA face ao laborioso compromisso nuclear com o Irão, nunca aceite por Tel-Aviv e por Riade. Isso pode abrir uma tensão nova com as potências europeias que nisso se empenharam, como Macron já expressou de forma clara. Mas a Europa, cuja unidade Trump despreza e teme, esteve praticamente ausente do discurso, que apenas se preocupou com uma vaga referência ao Reino Unido e à Polónia, bem como às tensões com Moscovo que, por via da Ucrânia, fazem fervilhar o seu Leste.

 

A Rússia, com a qual Trump sonhou um "deal" estratégico, com consequências no Médio Oriente, talvez mesmo à custa da Ucrânia, foi um tiro pela culatra face às intenções originais de Trump. Uma grande parte da América olha ainda para Moscovo pelo filtro da Guerra Fria e Putin seria sempre o mais improvável novo "amigo americano". As trapalhadas com a Rússia revelaram-se o principal "faux pas" de Trump.

 

E a China, onde fica? Washington percebeu, de há muito, que o seu verdadeiro adversário estratégico se chama China. Sabia-se que era a China que preocupava uma possível administração Clinton e uma agenda tão "business-oriented" como aquela que levou Trump ao poder deu a isso um elevado grau de atenção. A lógica de abordagem do problema chinês era, contudo, diferente, entre Clinton e Trump. A primeira iria privilegiar o tecido de alianças económicas na região, através da Parceria Transpacífico. O segundo, indisponível para aceitar as concessões que o jogo multilateral implica, preso aos compromissos imediatistas da agenda protecionista que a sua base empresarial e laboral de apoio lhe impôs, foi por outro caminho. Um caminho mais confrontacional e muito menos confortável para os aliados americanos na região.

 

Embaixador

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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