Luís Pais Antunes
Luís Pais Antunes 18 de julho de 2012 às 23:30

O duro choque da realidade

Há poucos dias, o France Soir sublinhava que os dois anos de estado de graça de que beneficiou Mitterrand após a sua chegada ao poder, não chegaram a durar dois meses no caso de Hollande.
Goste-se ou não, a eleição de François Hollande há pouco mais de dois meses "abalou" o edifício europeu. O discurso dominante mudou, fazendo com que o crescimento económico regressasse ao léxico do "politicamente correcto" e alguns chegaram mesmo a vaticinar que estava dado o primeiro passo para voltar a pôr o comboio nos trilhos. Aos poucos, contudo, o entusiasmo inicial começou a esmorecer. Indiferente às boas vontades e às palavras de esperança, a realidade prosseguiu o seu caminho, teimando em sobrepor-se aos desejos de todos aqueles que achavam ter encontrado a chave de um novo rumo.

Se na frente europeia o ímpeto inicial parece ter-se esgotado rapidamente, no plano interno os problemas começam a ganhar uma dimensão muito significativa. O recente relatório do Tribunal de Contas foi arrasador para a situação das contas públicas em França, limitando a, já de si significativamente pequena, margem de manobra do novo presidente e do seu governo para cumprir, ainda que muito parcialmente, as promessas eleitorais. Embora a "austeridade" e o "rigor" sejam ainda palavras-tabu no discurso presidencial, os sinais da sua inevitabilidade multiplicam-se. O anunciado encerramento de algumas fábricas da Peugeot-Citroën e o despedimento de muitos milhares de trabalhadores ameaçam agora tornar-se num teste de muito difícil resolução para os novos governantes. Há poucos dias, o France Soir sublinhava que os dois anos de estado de graça de que beneficiou Mitterrand após a sua chegada ao poder, não chegaram a durar dois meses no caso de Hollande.

Já se percebeu que, para lá do discurso e das intenções, o novo governo francês está "condenado" a trilhar o mesmo "caminho das pedras" em que outros – a começar pelo português e pelo espanhol, passando pelo italiano e pelo irlandês, já para não falar do grego – vêm, com maior ou menor empenho, gastando as suas energias. Mas desenganem-se aqueles que pensam que tudo se resume a uma mão cheia de países que andaram a ser mal governados, à esquerda ou à direita, e que não souberam criar as condições para se proteger das dificuldades que a crise financeira internacional amplificou.

Há demasiados anos que a Europa tem vindo a tentar mascarar as suas ineficiências e a construir um gigante de pés de barro. O diagnóstico é bem mais antigo do que se pensa e as tentativas para debelar o mal sucedem-se. Foi assim com a malograda Estratégia de Lisboa, lançada em 2000 e relançada em 2005. É assim com a Estratégia Europa 2020, nascida há pouco mais de dois anos. A identificação dos problemas foi mal feita? As respostas desenhadas não eram, nem são as mais indicadas? Não julgo que seja esse o caso. Haverá certamente nessas estratégias e respectivos programas de acção aspectos menos conseguidos, mas no essencial os objectivos definidos e o caminho para os alcançar apontam na boa direcção.

O problema é outro e convivemos diariamente com ele. Queremos o novo, sem abdicar do antigo. Queremos crescer, sem mudar o que nos fez e faz ficar mais pobres. Queremos que a realidade se adapte a nós, em vez de fazermos o que temos a fazer para nos adaptarmos ao mundo que nós próprios fomos construindo. Como diria Einstein, a realidade pode ser uma ilusão. Mas nem por isso deixa de ser persistente

* Advogado

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comentários mais recentes
Marmelo 23.07.2012

Para Olisipone :15:03
Eu sou pouco empreendedor. Podes começar a trabalhar por mim. Viva a Revolução Francesa.

Não se pode ter o novo com velhos POLÍTICOS! 19.07.2012

É verdade que o lobbying em Portugal ainda é muito subterrâneo, o que se confunde com promiscuidade e tráfico de influências. Mas 1 Empresa para existir deve ter Lucros, fazer a diferença com a concorrência e ser Competitiva numa determinada área de Negócios.
Idem para 1 País,que tem que se adaptar à realidade e perceber que ela muda todos os dias a 1 velocidade espantosa.
Não podemos querer o novo sem abdicar do Antigo. O.K.
Mas com RELVAS/ SILVAS PEREIRAS, temos mais do mesmo.
Portugal continua a ter1 superavit de Claustrofobia.
Quando D. JANUÁRIO na sua homilia deixa de ser "politicamente correcto" cai o Carmo e a Trindade!
Valha-nos DEUS!

FJMFerreira 19.07.2012

Solidariedade NAO TEM NADA a ver com estado social. Ser-se solidario e' dar a outros o que E" SEU, seja dar o seu tempo seja dar os seus recursos. Os politicos fazem "solidariedade" com o dinheiro que NAO LHES PERTENCE!!!! Esse dinheiro foi TIRADO a quem produziu. Gostava de ver nas declaracoes de impostos dos politicos quanto dinheiro e' que eles dao a instituicoes de caridade ou de solidariedade. Aposto que muitos dao ZERO, nicles batatoides.
E ainda que o estado social ajudasse MESMO os mais desfavorecidos. Ha estudo que provam que a eficiencia do estado social nao e' mais do que 30%. Quer dizer, se voce desconta 300 euros por mes, apenas 90 euros realmente chegam a quem precisa. E os outros 210 euros? Despesas de administracao, ministros, secretarios de estado, administrativos, motoristas, carros, telemoveis, agua, luz, ADSE, etc, etc, etc...
So voce quer ser solidario e ajudar os mais pobres, nao seria mais eficiente voce dar esse dinheiro DIRECTAMENTE a uma ou varias instituicoes da sua esolha? Seria muito mais eficiente e seria VERDADEIRA solidariedade.

Olisipone 19.07.2012

O CERNE DA QUESTÃO, foi a correcção feita em 1789, na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, à frase da Declaração de Independência dos EUA de 1776 que afirmava que "os homens nascem livres e iguais". A Revolução Francesa acrescentou "em direitos". E este aditamento que parece à primeira vista restritivo é na realidade muito mais abrangente, pois se da Revolução Americana surgiram o Capitalismo Moderno e as ideias de "empreendedorismo", em que só não é rico quem não trabalha dado sermos todos "iguais", a Revolução Francesa deu origem às Democracias Modernas ao reconhecer as diferenças, e a necessidade de as ultrapassar conferindo a todos os mesmos direitos, quer sejam mais, ou menos "empreendedores": foi a semente da solidariedade e do Estado Social.

A Revolução Neo-Liberal a que assistimos, CONDUZIDA PELA UE, consiste em INVERTER E RECUSAR a herança da Revolução Francesa. Temos os Estados cumpridores e incumpridores, que tinham a "obrigação" de terem todos atingido o mesmo nível da Alemanha, e temos os cidadãos "empreendedores" e os que não o são.

Uma sociedade baseada na "concorrência e competitividade" em vez da solidariedade só pode resultar na aquilação dos mais fracos, e é essa a GRANDE RUPTURA a que estamos a assistir.

É NECESSÁRIO LUTAR CONTRA A REVOLUÇÃO NEO-LIBERAL, e a única maneira que Portugal tem de o fazer é SAINDO DO EURO E DA UE!!!

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