Edson Athayde
Edson Athayde 07 de novembro de 2017 às 20:57

O efeito da superioridade ilusória

Já ouviu falar da síndrome de impostor? Trata-se de uma patologia psicológica bastante comum nas suas formas mais brandas. Pode, inclusive, ser apenas transitória. Dar e passar, como uma chuva.

O indivíduo ao padecer dessa síndrome não consegue interiorizar o próprio sucesso. Por mais que tenha êxito, por melhor que execute as suas tarefas, por maior que seja o reconhecimento alheio, por dentro a sensação é de fracasso.

 

"Eles ainda vão descobrir que eu não sou bom" é o que teme aquele que se julga impostor. Diria que a totalidade dos criativos (de todas as áreas), nem que seja por um breve momento na vida, já vivenciou tais sintomas. Eu mesmo passei décadas a temer ser apanhado. Hoje, menos. A maturidade faz com que você se conheça melhor e os outros. Não é que eu me ache assim tão bom. Mas sei que sou bem menos pior do que muitos outros (se me permitem o paradoxo).

 

No outro lado da moeda temos algo muito mais aflitivo: a síndrome da superioridade ilusória, quando a pessoa acredita (de forma equívoca) ser a última bolacha do pacote.

 

O nome científico da coisa é efeito Dunning-Kruger, que estabelece que "a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento".

 

Ou seja, quem estuda muito um assunto sabe que não sabe tudo sobre ele. Quem estuda pouco ou nada tende a iludir-se e pode achar-se um experto na matéria.

 

Há um meme que circula pelas redes sociais que exemplifica isto: "Se você está morto, não sabe que está morto. Se é idiota, também não."

 

Nas caixas de comentários dos jornais e das redes sociais a superioridade ilusória manifesta-se a cada linha, cada palavra, cada letra publicada por quem não tem dúvidas de nada, conhece a verdade de tudo, trabalha em part-time como juiz do mundo.

 

Outra manifestação frequente dessa fantasiosa grandeza pode ser vista através da leitura de CV no Linkedin.

 

Frequentemente sou apanhado numa mistura de sentimentos entre a incredulidade e a pena ao ler o que as pessoas escrevem sobre os seus percursos profissionais.

 

Sei que um pouco de autoestima é importante, mas a coisa não pode evoluir para devaneios ególatras. Uma coisa é gostar de levar "likes" no Facebook outra é pensar que toda gente acredita na versão melhorada de si mesmo.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "O mal do nosso tempo é a superioridade. Há mais santos do que bichos."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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