Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 05 de outubro de 2017 às 16:56

O efeito Mateus

Uma passagem da Bíblia é esclarecedora quanto ao caminho para o alto desempenho. Lê-se no Evangelho de São Mateus: "Porque, a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância. Mas ao que não tem, até o que não tem lhe será tirado."

Há alguns anos, num estádio de hóquei no gelo no Canadá, um casal esperava que o jogo começasse, conta Malcom Gladwell, na obra "Os Fora de Série". Olhando a lista de jogadores, perguntou então a mulher ao marido - "Sabes quando é que nasceram?" "Têm todos uns vinte anos", respondeu o marido. "Não é isso; em que mês nasceram?", insistiu a mulher, ao que o marido respondeu meio confuso - "Em que mês? Mas são mais de vinte jogadores…" "Pois é", continuou a mulher, "mas a maioria nasceu em Janeiro". Assim era. E no campeonato nacional o padrão era o mesmo. Porquê?

 

Porque a prática do hóquei no gelo, o desporto nacional do Canadá, começa na infância. 1 de Janeiro é a data que define os escalões. Quem faz anos a 1 de Janeiro ou a 31 de Dezembro fica no mesmo nível. Mas em termos práticos o jogador de Janeiro é um ano mais velho. Na infância e adolescência, essa diferença pesa em termos físicos e cognitivos. O jogador mais velho, em média, tem mais destreza e conhecimento e vai ganhar mais vezes. No ano seguinte, vai para a melhor equipa, que tem os melhores treinadores e as melhores condições. Se era bom, vai ser ainda melhor.

 

Uma década neste ritmo e quando se chega às equipas seniores, mais de um terço dos jogadores nasceu em Janeiro, metade nasceu no primeiro trimestre e 80% nasceram nos primeiros seis meses do ano.

 

Em geral, começar cedo, explorar uma vantagem, por pequena que seja, e sujeitar-se à competição é um bom caminho para a alta performance. 

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