Antonio Foglia
Antonio Foglia 24 de setembro de 2017 às 14:00

O elefante na sala do pós-crise

Quando políticos e tecnocratas procuram mais poder para produzir resultados, os cidadãos têm de sacrificar algumas liberdades. Mas na maioria das vezes, alcançar o resultado prometido está para além do controlo dos nossos líderes.

A crise financeira global que começou em Agosto de 2007 resultou de um enorme e inevitável erro cognitivo por parte de reguladores e banqueiros. Dez anos depois ainda há poucos dispostos a admitir esse facto, e muito menos a explorar remédios adequados.

 

Na verdade, aconteceu o contrário: os reguladores impuseram regras cada vez mais complexas, e os bancos demasiados grandes para falir ficaram ainda maiores. Pior ainda, a resposta errada à crise ameaça não apenas o sector financeiro, mas as sociedades abertas em geral.

 

Para ser mais preciso, a crise financeira teve diferentes catalisadores em diferentes países, incluindo empréstimos de alto risco, bolhas imobiliárias, dívida soberana e recessões económicas que afectaram pequenas e médias empresas. Mas também houve um denominador comum: uma debilidade estrutural no sector da banca – um dos mais regulados da economia já na altura - que deixou bancos altamente regulados incapazes de suportar as perturbações económicas tão bem como as instituições financeiras não reguladas.

 

De acordo com um estudo realizado em 2012 por Andrew G. Haldane, do Banco de Inglaterra, a crise financeira provocou falhas em cerca de metade dos 101 bancos com balanços superiores a 100 mil milhões de dólares em 2006. A grande maioria desses bancos, incluindo o Lehman Brothers nos EUA, não havia violado nenhum dos regulamentos prudenciais já existentes antes da crise. Além disso, 11 já cumpriam os requisitos de capital que estão actualmente a ser introduzidos como parte dos novos regulamentos de Basileia III. Mesmo assim, quatro desses 11 faliram. 

 

Essas descobertas implicam que as novas regras pós-crise são inadequadas. Para comprovar isso mesmo consideremos o espanhol Banco Popular, que passou na revisão da qualidade dos activos do Banco Central Europeu em 2014 e o teste de stress da Autoridade Bancária Europeia em 2016. Em Dezembro passado, o Banco Popular ainda tinha um rácio de capital tier 1 de mais de 12%, ligeiramente abaixo da média e 50% acima do requisito mínimo. Seis meses depois faliu, arrasando muitos activos dos detentores de obrigações.

 

Apesar destes alertas, poucos exigiram uma explicação das autoridades financeiras sobre as falhas das novas regras. Como resultado, Mark Carney, governador do Banco da Inglaterra e presidente do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB), não teve qualquer problema em escrever numa carta aos líderes do G20 em Julho que "os maiores bancos precisam de ter dez vezes mais capital de alta qualidade do que antes da crise". Essa afirmação, verdadeira ou não, aponta para um erro grave antes da crise que não foi suficientemente investigado, muito menos corrigido.

 

O capital dos 55 maiores bancos dos EUA e Europa praticamente duplicou desde 2006, tanto em termos absolutos como em relação aos activos ponderados pelo risco. Mas, apesar do episódio do Banco Popular, os banqueiros dos dois lados do Atlântico estão a fazer pressão para que as novas regras de capital sejam mais relaxadas e para permitir um aumento da alavancagem e dos retornos.

 

Porque é que os reguladores e banqueiros insistem aparentemente nos seus erros? Para começar, as autoridades bancárias nunca investigaram adequadamente o seu próprio papel na crise anterior, porque não tinham nenhum incentivo para o fazer. Pelo contrário, aproveitaram a oportunidade de ocultar a sua responsabilidade quando os políticos, desorientados, culparam outras actividades financeiras não bancárias, que chamaram de "bancos sombra".

 

Esses rótulos só confundem o problema com a solução, porque não abordam a questão central de ter sido o próprio sistema de supervisão bancária a provocar a última crise. Os intermediários financeiros baseados no mercado, como os hedge funds, podem ser relativamente pouco regulamentados, mas também são responsáveis pelo seu próprio destino. Como resultado, operam quase sempre com muito mais capital do que os bancos devem ter para o mesmo nível de risco. Não admira que tenham tido mais resiliência durante a crise.

 

Os banqueiros, por outro lado, presidem grandes instituições que têm muitas linhas de negócio num grande conjunto de jurisdições. Dada essa complexidade, é improvável que compreendam os riscos globais que pesam sobre as suas instituições. Em vez disso, baseiam-se nas regras prudenciais que lhes são dadas, e ficam felizes de ver que continuam a dar lucros.

 

Quando os bancos têm uma rentabilidade extraordinária, mesmo jogando de acordo com as regras, os banqueiros assumem que estão a fazer a coisa certa e compensam-se em conformidade com isso. Isso reduz o retorno sobre o capital dos accionistas para um nível mais normal. Os reguladores visam agora as compensações excessivas com um novo conjunto de regras intrusivas. Mas as compensações excessivas são apenas outra consequência directa do próprio erro dos reguladores de estabelecer requisitos de capital insuficientes.

 

Parece que nos escapou a todos uma questão básica. A economia é um sistema complexo e adaptativo, povoado por agentes falíveis com conhecimento imperfeito. E dentro desse sistema estão outros sistemas complexos, como os regimes de regulação financeira de hoje e as grandes instituições financeiras. Em tais sistemas, as políticas podem não ser tão eficazes como os modelos sugerem, e muitas vezes irão levar a consequências não desejadas.

 

Embora os mercados estejam quase sempre errados, são um poderoso mecanismo para responsabilizar os indivíduos e as entidades pelos seus próprios erros. As tecnocracias regulatórias fazem o contrário: ao diluir a responsabilidade e privilegiar as decisões colectivas, entravam o talento individual que as povoa.

 

Naturalmente, isto é tudo muito desorientador para o público. Sabemos que num sistema complexo, a borboleta proverbial que bate as asas num continente pode provocar um furacão noutro. Mas não culpamos as borboletas pelo clima, e geralmente estamos preparados para os seus caprichos. No entanto, tendemos a procurar bodes expiatórios quando as coisas dão errado e partilhamos a ilusão de que os controlos mais apertados são sempre melhores. Isso explica o estabelecimento de novas entidades pós-crise com missões impossíveis, como o FSB. Faz tanto sentido como estabelecer uma Comissão de Tempo Justo para garantir que há sempre sol nos fins-de-semana.

 

Quando políticos e tecnocratas procuram mais poder para produzir resultados, os cidadãos têm de sacrificar algumas liberdades. Mas na maioria das vezes, alcançar o resultado prometido está para além do controlo dos nossos líderes. Quando falham, culpam outros factores que não a sua incapacidade de lidar com o sistema complexo que criaram, para não minarem a sua própria autoridade. Mas isso acaba sempre em frustração e descontentamento generalizados, dando margem aos populistas em todo o mundo.

Antonio Foglia, membro do conselho de administração do Banca del Ceresio, é membro do Conselho de Parceiros Globais do Institute for New Economic Thinking.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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Anónimo Há 2 semanas

Grande artigo em defesa da economia de mercado, que evidencia as consequências negativas da interferência das autoridades monetárias.
A opinião pública acredita que o problema resulta do próprio mercado (o tal capitalismo desregrado) e entrega cada vez mais poder as autoridades monetárias. Trágico!

Anónimo Há 3 semanas

Muito bom e esclarecedor.

Anónimo Há 3 semanas

Muito bom e esclarecedor.