Filipe Santos
Filipe Santos 24 de setembro de 2017 às 19:00

O empreendedorismo social e a construção de uma economia de impacto

Uma das mais relevantes tendências da gestão na última década é a crescente incorporação de preocupações sociais na atividade dos empreendedores e das empresas. 

Na sua essência, o empreendedorismo social é o desenvolvimento e a validação de novas soluções para problemas importantes e negligenciados da sociedade.

 

O empreendedorismo social começou por ser uma atividade dinamizada por indivíduos que aliavam a sua capacidade de idealizar uma sociedade melhor com a sua capacidade de agir, transformando as suas ideias em iniciativas concretas. Desde novas formas de aceder a microfinanciamento, a novos modelos educativos, a plataformas digitais de partilha de conhecimento, a modelos de valorização de recursos locais,  ou modelos de acesso de baixo custo a energia ou cuidados de saúde, os empreendedores sociais distinguem-se dos empreendedores comerciais pelo seu objetivo de criar valor para a sociedade e distinguem-se das tradicionais organizações de apoio social pela sua vontade em desenvolver modelos economicamente sustentáveis, gerando receitas, disseminando as suas inovações e procurando aumentar o seu impacto.

 

Atualmente, segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor, o empreendedorismo social envolve entre 2,5% a 5% da população europeia, e é um motor importante para o aumento da inclusão, justiça e prosperidade. Entre nós, bons exemplos de empreendedorismo social, como o Color Add na inclusão de pessoas com daltonismo, o Speak na integração de refugiados e emigrantes, a Academia de Código no ensino de programação, ou a Cozinha com Alma no apoio a famílias que caíram na pobreza, entre muitos outros, inspiraram uma nova política pública - a Portugal Inovação Social - e tornaram o nosso país numa referência internacional no apoio à inovação social.

 

O exemplo dos empreendedores sociais está a contaminar positivamente as empresas. Cada vez mais empresas assumem uma missão social ou implementam boas práticas de gestão ambiental e social, adotando uma perspetiva mais sistémica de atuação. Um exemplo é o movimento global das empresas B (B Corp) que já conta com mais de 2.200 empresas em todo o mundo, incluindo, em Portugal, empresas como a Hovione, a Abreu Advogados e a BioRumo. Ao mesmo tempo, grandes empresas e multinacionais aprofundam a sua estratégia de sustentabilidade e procuram desenvolver inovações que respondam às preocupações da sociedade, acreditando não só que é o que devem fazer em termos éticos, mas também que é a estratégia mais acertada para o seu negócio e organização. 

 

Esta estratégia está a encontrar resposta por parte do sistema financeiro e dos investidores. Uma tendência importante é a integração de critérios ESG - Environment, Social, Governance - na seleção e gestão das carteira de investimentos. O volume de fundos aplicados em empresas com bons critérios ESG é muito elevado, representando já 10,4 triliões (milhão de milhões) em todo o mundo e estando a crescer a mais de 15% ao ano, podendo tornar-se em breve a forma dominante de investimento. 

 

Mas não serão as preocupações sociais uma distração para as empresas na condução do seu negócio? Pelo contrário, dados recentes mostram que a adoção pelas empresas de preocupações sociais e ambientais tem implicações positivas no seu desempenho e no desempenho daqueles que nelas investem. Um artigo do Financial Times de 4 de setembro ("The Big Read - The Ethical Investment Boom") revela que, desde a crise financeira de 2008, estratégias de investimento assentes em critérios ESG trazem mais retorno do que estratégias de investimento mais genéricas ou sem preocupações sociais. E sugere mesmo que o investimento em ESG se tornará dominante, pelo que as empresas que não incorporem estes critérios de gestão se arriscarão a perder não só oportunidades de financiamento como a sua capacidade em atrair e reter talento. 

 

O que tudo isto nos diz é que estão a ser criadas as bases para uma verdadeira economia de impacto, em que os agentes económicos são recompensados, não apenas por gerarem mais lucros no curto prazo, mas por colocarem as preocupações de longo prazo da sociedade como fonte de inspiração na definição do seu negócio e da sua conduta empresarial.

 

Professor do The Lisbon MBA

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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