Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 09 de agosto de 2017 às 19:26

O escorpião e a rã

O que a maioria dos trabalhadores está a recusar, contra a sua comissão de trabalhadores, mas com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores (…) é a oportunidade da sua passagem para a outra margem.

A FRASE...

 

"A maioria dos trabalhadores da Autoeuropa (75%) recusou o pré-acordo laboral negociado entre a comissão de trabalhadores e a administração (…) que implicará que sejam necessários 18 turnos laborais, de manhã, à tarde e à noite, de segunda a sábado, passando as folgas a ser ao domingo e outra rotativa ao longo da semana."

 

Nicolau Santos, Expresso, 5 de Agosto de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Para se compreender a verdadeira natureza do escorpião é preciso vê-lo a atravessar um rio em cima de uma rã. Não resiste à tentação de matar a rã, afogando-se. Não se pode aplicar aqui o critério de racionalidade instrumental, que procura atingir um objectivo do modo mais eficiente. Mas ainda há uma racionalidade, só que de tipo emocional, em que o desejo ou o ressentimento são mais fortes do que o instinto de sobrevivência. O escorpião não tolera que a rã continue viva, mesmo que morram ambos.

O programa da Autoeuropa pretende passar a produção de 90 mil unidades em 2016 para 240 mil unidades em 2017, para o que terá de contratar cerca de 2 mil novos colaboradores, dos quais 750 são para preencher o sexto dia semanal de produção do novo horário de trabalho, oferecendo mais 175 euros além do que está previsto na legislação e um dia adicional de férias, com a redução do horário de trabalho semanal para as 38,20 horas, o que corresponde a aproximadamente menos 10 dias de trabalho por ano. O que a maioria dos trabalhadores está a recusar, contra a sua comissão de trabalhadores, mas com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energias e Actividades do Ambiente do Sul (SITE Sul), é a oportunidade da sua passagem para a outra margem, transportados em cima de uma empresa que, uma vez constrangida no seu programa de expansão, terá de procurar outras paragens onde seja reconhecida na sua função.

 

Não há racionalidade instrumental, mas há racionalidade emocional. Quando os trabalhadores invocam o seu direito a defenderem a sua qualidade de vida para não aceitarem o horário de trabalho proposto e o aumento dos postos de trabalho, estão a defender as mesmas grandes "conquistas dos trabalhadores" que conduziram à destruição das posições de capital nas empresas e nos bancos, à venda das empresas e à deslocalização do trabalho pela emigração, mas também à transferência da soberania, que tem de ser delegada para centros de maior escala e onde seja respeitada a racionalidade instrumental.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Anónimo 13.08.2017

a empresa que faça o que bem entender não me queiram é tirar o pouco tempo que tenho para dedicar á minha família e fazer de mim um escravo para produzirem 240000 carros numa fabrica que foi projectada para produzir no máximo 180000. os horários que a fabrica quer implementar é escravidão

Anónimo 13.08.2017

Bom dia. Acho que devem ponderar bem o que vão fazer. Quando fechar depois choram... e os sindicatos já diz o ditado; com papas e bolos se enganam os tolos. Não sejam tolos porque depois os sindicatos não lhes dá emprego.....

Anónimo 11.08.2017

Ao ponto a que chega o capitalismo...
Triste sociedade esta que nos faz ter medo de tudo...
Todos os argumentos são válidos para pedermos vida...
Afinal quem se importa com a vida de quem precisa....

Mr.Tuga 10.08.2017

Que dizer?!
São uns KAMIKAZES!
Depois, quando a empresa deslocalizar, vão atras do prejuízo e pedinchar e chorar como uns bebes e pedir ajuda e subsídios ao "estado"....

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