Fernando  Sobral
Fernando Sobral 21 de janeiro de 2018 às 19:20

O espantalho da justiça

Muitas vezes a justiça indígena é um espantalho: assusta os portugueses. Noutras, mais remotamente, assusta-se a si própria. Sobretudo nos momentos em que se olha ao espelho e este se desfaz em mil pedaços.

Quando olhamos para alguns dos iogurtes estragados que foram servidos à sociedade nos últimos tempos, do BPN a José Sócrates, poderíamos dizer que esta não é uma questão de "turbulência": é de susto desorganizado. A cerimónia de abertura do ano judicial mostrou como, para lá de todas as suas outras qualidades, os principais responsáveis da justiça em Portugal têm uma inquestionável habilidade para gerir estes tempos em que a pós-verdade se confunde com a pós-mentira. Se no dia da cerimónia o que contavam eram as aparências e não as divergências, o que causa mais desconforto é que durante o resto do ano este silêncio cósmico mantém-se. Talvez seja ainda uma herança dos tempos de nascimento e crescimento do Centro de Estudos Judiciários, onde Laborinho Lúcio privilegiava sensatamente o teatro como fonte de ensino para os homens e mulheres que futuramente iriam agarrar na balança da justiça. O problema é que esse teatro parece muitas vezes interpretado por espantalhos.

 

É certo que a tartaruga poderia ser o símbolo perfeito de Portugal. Da sua lentidão para concretizar qualquer sonho ou para resolver qualquer desafio. Entre os prós e os contras de cada opção, o país coloca uma venda nos olhos como a justiça e tenta equilibrar os benefícios e os danos. O resultado é a ausência de decisões. A justiça é, ela própria, o palco mais óbvio deste desencontro com o calendário veloz dos tempos recentes. É um divã onde se deita a incapacidade portuguesa para decidir célere. A culpa, convenhamos, não é desse temível Darth Vader que é a classe política. É também da sociedade que considera que amanhã, ou depois, se dará um jeito para resolver os problemas de hoje. Na justiça, isso é mais do que evidente. O direito é uma linguagem cifrada. Mas os dignitários da justiça nacional levam esse desígnio demasiado à letra.

 

Grande repórter