Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 03 de julho de 2017 às 20:45

O Estado falhou nas causas, o Governo falhou na reacção

Perante a gravidade do caso, o maior roubo de armamento militar deste século na Europa, o Ministro diz que não lhe competia saber se havia falta de segurança.

O Estado falhou em Pedrógão Grande, porque não é possível pretender que o Estado não falha quando, no seu território, e tendo a seu cargo a sua segurança, mais de sessenta pessoas morreram na sequência de um enorme incêndio, algumas tentando fugir por uma estrada que não estava encerrada. 

 

O Estado falhou em Tancos, porque não é possível pretender que o Estado não falha quando, nas suas instalações, e por eventual recurso a informação privilegiada, ocorre um enorme roubo de armamento militar, armamento suficiente para colocar em causa a segurança de pessoas, bens, países, num Mundo acossado por terrorismo espontâneo e organizado.

 

O Estado Português falhou, portanto, aos seus, aos portugueses. E falhou ao Mundo inteiro, também, que hoje pode ser vítima de um qualquer grupelho que roubou ou mandou roubar ou mandou comprar a quem roubou o armamento.

 

São duas falhas objetivas, reais, concretas, do Estado, que exigiriam do Governo uma resposta clara, firme, segura: vamos saber o que se passou, vamos fazer tudo para que não volte a acontecer, vamos encontrar os responsáveis, vamos mudar o que há a mudar, pedimos desculpa, isto não vai ficar impune.

 

Não foi nada disso que sucedeu, como se sabe, em nenhum dos casos.

 

Ou seja, às falhas do Estado, e num momento de grande insegurança e fragilidade, sucederam-se as falhas do Governo, essas, sem sombra de dúvida, subjetiva e objetivamente imputáveis ao Primeiro-Ministro e aos seus Ministros.

 

No caso de Pedrógão, quando era já evidente o desnorte, o caos, o fracasso, a descoordenação, as deficiências, os membros do Governo entraram em contradições, afirmaram não ser claro que alguma coisa tivesse falhado, fizeram imensas perguntas e não conseguiram obter uma única resposta sólida, segura, deixando os serviços do Estado desfilar o passa responsabilidades em plena praça pública.

 

Num momento em que os portugueses precisavam de ter confiança no Estado, depois de uma enorme falha, o Governo não respondeu. É que foi isso mesmo, não respondeu. Não sabe ao certo, tenta saber, sabe coisas contraditórias, está com curiosidade em saber, não explica o que vai mudar, o que não volta a suceder, o que está a fazer. Nada. Desfilam emoções, mas faltam ações.

 

No caso de Tancos, perante a gravidade do caso, o maior roubo de armamento militar deste século na Europa, o Ministro diz que não lhe competia saber se havia falta de segurança, abundam informações sobre a falta de segurança das nossas instalações, a lista de armamento roubado aparece publicada em Espanha, e não se ouviu, até agora, uma garantia clara, segura, de que isto não volta a suceder, que foram ativadas todas as medidas necessárias, que o Estado Português se dá ao respeito.

 

Num momento em que o Mundo olha para nós como o sítio onde as armas estão à disposição de um freguês mais habilitado, o Governo não respondeu. É que, também aqui foi isso mesmo, não respondeu. Alguém ouviu já o Primeiro-Ministro, uma vez que o Ministro diz que só é responsável por acaso? Alguém ouviu já o Primeiro-Ministro, em nome do Estado Português, a dar garantias sérias a este respeito?

 

Depois das falhas do Estado Português, e para fugir delas, para as disfarçar, para as ocultar, foi a vez do Governo falhar aos portugueses, das duas vezes, uma a seguir à outra.

 

Em vez de querer pôr vacas a voar, era preferível que o Governo não falhasse no essencial: dar segurança a quem cá vive, ser penhor de confiança, ser garante.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado IS Há 2 semanas

O Estado falhou completamente. É grave também o facto de ninguém até ao momento ter assumido a sua responsabilidade política direta sobre este assunto. Bom artigo de opinião de Adolfo Mesquita Nunes.

comentários mais recentes
IS Há 2 semanas

O Estado falhou completamente. É grave também o facto de ninguém até ao momento ter assumido a sua responsabilidade política direta sobre este assunto. Bom artigo de opinião de Adolfo Mesquita Nunes.

Lolita Há 2 semanas

Esperemos que tenham sido anarquistas a ficar com os explosivos. A esperança de que Portugal fique para sempre na história do séc XXI ainda não está perdida. Estes partidos de m*rda que se vendem e dão o ku pelo poder, chupam os generais por medo. Para que k*ralho queremos um exército neste país?

Anónimo Há 2 semanas

Nenhum ministro sabe como funciona o Estado. Muitas vezes quando não gostam do ministro fazem-lhe a vida num inferno. Não adianta substituir um por outro, porque o mal está instalado há muito tempo e existem culpados dentro.

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