Fernando  Sobral
Fernando Sobral 12 de julho de 2017 às 19:07

O estágio da nação

O debate do estado da nação é, para que ninguém fique com uma crise de urticária, um cardápio inalterado de ataques, emboscadas e iniquidades várias. Normalmente é uma inexistência andante.

É o reflexo da elite da nação que só vê o que quer ver, ou melhor, o que cada facção deseja transformar em real. Cada um fala para o seu espelho. Essa "selfie" deprimente mostra as rugas do regime. Ontem poderia ter sido diferente, porque Tancos ou Pedrógão poderiam ser motivadores para uma mudança de discursos. Mas o vento afasta todas as ilusões. O momento mais difícil do Governo, nas palavras imparciais de Pedro Nuno Santos, não foi o melhor momento da oposição. Talvez ainda não seja possível a grande reforma do Estado, e do novo mundo que estes anos de socratismo e de passismo propiciaram: o de uma nova elite que vive da parasitagem do Estado e que tem verdadeiro peso nele. E, na generalidade dos casos, não têm nada que ver com sectores que criem riqueza: apenas realizam negócios ou facilitam-nos. Antero de Quental já temia isso quando escreveu há mais de um século: "Portugal ou se reformará, política, intelectual e moralmente ou deixará de existir." É que a crise portuguesa não é financeira. É de coesão social, de criatividade intelectual, de debate sobre o modelo de futuro. E não apenas de fingir querer fazer.

 

O chamado debate sobre o estado da nação reflecte este deserto e esta pobreza espiritual. Portugal é um verdadeiro muro das lamentações. Todos encontram lá algum conforto para o que os faz lacrimejar. O país tornou-se um divã estilo colchão Molaflex: adapta-se às costas de cada português. Ali uns podem queixar-se da educação, outros da globalização, alguns do Estado, uns quantos do sector privado. E todos uns dos outros. A culpa de cada um é, assim, varrida para debaixo da cama. Daqui a uns dias o que sobrará deste fogo-de-artifício a que se assistiu ontem? Um vago eco, entre o estado de graça que se finou e um coro de críticas desafinadas e sem conteúdo. Como sempre a nação continua em estágio.

 

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Judas a cagar no deserto 12.07.2017

Ultima Hora: No final de reunião com o primeiro-ministro, o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas explicou que boa parte do material furtado em Tancos estava para abate. Podia ser uma boa notícia, não estivéssemos ainda dentro dos 30 dias, ou seja, os assaltantes podem trocar os artigos.

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