Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 10 de janeiro de 2017 às 10:35

O estranho jogo de Poker no Novo Banco

Dar a carne (mesmo que escassa) e ficar com os riscos de roer o osso pode ficar bonito mas não defende os interesses nacionais.
A Lone Star vai ficar com o Novo Banco? Talvez. A Apollo está fora da corrida? Talvez não. A oferta da Lone Star é a melhor colocada? Sim, mas não está ainda como o Banco de Portugal quer. A Apollo pode melhorar a oferta? Pode. Confusos? É natural. O comunicado do Banco de Portugal sobre a venda do Novo Banco levanta uma série de cenários mas não conclui nenhum. É uma situação caricata resultante deste modelo de venda escolhido. Entendo que a transparência é algo que, nos dias de hoje, é muito valorizado, mas os melhores negócios sempre se fizeram no secretismo das quatro paredes.

Se a Lone Star não aceitar abdicar da garantia do Estado Português, o Banco de Portugal retomará as negociações com a Apollo em clara fragilidade negocial. Quando a praça pública é o local de discussão de uma negociação desta importância, a informação tem um preço. E quem a comunica - o Banco de Portugal - fica numa clara desvantagem negocial.

O negócio parece estar encalhado na recusa governamental em aceitar a garantia do Estado exigida pela Lone Star. Neste aspecto, estou plenamente de acordo com António Costa e os seus pares. Se esse risco tem que ser assumido pelo Estado, mais vale não vender. Dar a carne (mesmo que escassa) e ficar com os riscos de roer o osso pode ficar bonito mas não defende os interesses nacionais. O facto desta negociação estar a fazer-se na praça pública faz com que o debate sobre o mesmo suba de tom, pois parece ser capaz de influenciar os decisores políticos. É natural que os partidos mais à esquerda defendam a nacionalização do Novo Banco, coerentes com a sua ideologia e com o que sempre afirmaram. Já eu me arrepio com essa solução…

O Estado já tem suficiente exposição ao risco no sector bancário via Caixa Geral de Depósitos e percebemos agora bem qual o seu custo para os contribuintes pela dimensão do aumento de capital em curso. Infelizmente, nos últimos anos, a Banca não tem sido um negócio rentável em Portugal. Voltará a sê-lo se o país crescer mas, se tal não acontecer, os contribuintes serão penalizados duplamente. E a prova disso é o desinteresse que esta operação de venda está a ser onde os interessados são, sobretudo, fundos abutres que pouco ou nada têm a ver com o sector bancário. Nacionalizar e expor os contribuintes a mais risco é continuarmos a cavalgar um ponto de interrogação na berma da ravina.

As próximas semanas talvez tragam novidades neste novo estilo de negociar na praça pública, quase como se jogássemos poker e mostrássemos ao nosso adversário as nossas cartas. Estranho mundo este em que a transparência custa caro.

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