Harold James
Harold James 02 de outubro de 2017 às 14:00

O fantasma alemão de Weimar

Uma nova coligação é uma maneira de mostrar que um novo começo, na política alemã, pode funcionar. E esse novo começo poderá alargar-se à Europa, com uma cooperação franco-germânica mais próxima.

O resultado das eleições na Alemanha apresenta um paradoxo estranho. A União Democrata-Cristã (CDU) da chanceler Angela Merkel é, sem dúvida, o partido mais forte e um novo governo sem ele é impensável. Mas tanto a CDU como o seu anterior parceiro de coligação, os Sociais-Democratas (SPD) não tiveram um bom resultado. A reacção inicial de muitos dos líderes do SPD aos 20,4% obtidos pelo partido nas eleições (abaixo dos 25,7% obtidos em 2013) foi de ficarem na oposição durante um período de tempo.

 

Esta resposta – uma fuga do poder – era uma característica da política alemã na curta experiência democrática que o país viveu entre guerras, a República de Weimar. Desde o início da República Federal, em 1949, que uma questão sempre perseguiu a política germânica: poderá a experiência de Weimar ser repetida, com a direita radical a triunfar novamente? Agora que um partido extremista, a Alternativa para a Alemanha (AfD), obteve lugares no Parlamento alemão (Bundestag) pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a questão saiu das sombras.

 

Há algum paralelismo óbvio com Weimar. Em Weimar, mesmo nos anos relativamente estáveis de meados e do final da década de 1920, antes do início da Grande Depressão, os partidos eram punidos pelos eleitores quando participavam no governo e recompensados quando se apresentavam como alternativa ou partidos de protesto. Entre 1924 e 1928, a direita moderada estava num governo de coligação e sofreu muito; e em 1928, o SPD foi punido por integrar uma coligação.

 

Depois veio a depressão e o mesmo mecanismo foi aplicado, e de uma maneira ainda mais vigorosa: era suicídio político apoiar o governo – ou, como apelidava a oposição radical, o sistema. O resultado foi uma fuga à responsabilidade, com os eleitores a punirem de uma forma severa os políticos que ficaram.

 

Se há espaço para optimismo sobre o resultado das eleições na Alemanha, esse optimismo reside no facto de o desfecho ser muito próximo da norma europeia. A AfD obteve 13%, quase a mesma percentagem que obteve o populista Geert Wilders na Holanda, em Abril, numa eleição que foi amplamente vista como uma derrota para o populismo radical. É claro que uma grande maioria dos alemães não apoia o AfD, cuja fortuna pode em breve desaparecer, devido à provável divisão na sua liderança.

 

De facto, é difícil ver uma base que suporte a continuação do crescimento do AfD. Em muitos países industrializados, as eleições são habitualmente tratadas como um reflexo simples do estado da economia. E isto é particularmente verdade na Alemanha. Os eleitores do milagre económico (Wirtschaftswunder) do pós-guerra orgulham-se de ter a economia mais forte da Zona Euro e que está a prosperar. O desemprego está em mínimos. Os números dos visitantes do Oktoberfest [festival de cerveja] em Munique estão a crescer, estes bebem e comem mais, mas são menos violentos e cometem menos crimes. Mesmo a Zona Euro como um todo está, de forma surpreendente, em forte recuperação.

 

Mas os governos são como as pessoas: depois de um longo período de tempo numa posição, ficam sem ideias. No final de 2016, Merkel parecia cansada e o novo líder do SPD, Martin Schulz, beneficiou de um surto de apoio nas sondagens. Mas quando se constatou que Schulz também não tinha ideias novas, o entusiasmo deu lugar ao desencanto.

 

O resultado que a coligação governamental obteve parece ser um reflexo claro da ampla frustração dos eleitores para com líderes que não têm nada de novo para oferecer. O resultado eleitoral vai fazer com que seja difícil formar uma nova coligação. A alternativa mais plausível – de facto a única – a uma grande coligação entre a CDU e o SPD seria um agrupamento grande que incluiria tanto os liberais (FDP) como os Verdes (seria a chamada coligação Jamaica, porque as cores dos partidos formam as cores da bandeira da Jamaica).

 

É dito frequentemente que Merkel teria gostado de uma coligação apenas entre a CDU e os Verdes, dado que Merkel se aproximou em muitas áreas da agenda dos Verdes depois de ter anunciado que iam deixar rapidamente a energia nuclear, após o desastre de Fukushima, em 2011. Mas a coligação Jamaica vai ser difícil de negociar porque o FDP é muito mais conservador em muitas questões económicas, em especial no que diz respeito a transferências orçamentais para o resto da Zona Euro.

 

Mas uma coligação Jamaica não está fora de questão – e poderá significar novas políticas para a Alemanha. Enquanto o perfil político do FDP é muito próximo do liberalismo de mercado clássico, durante os últimos dez anos os Verdes tornaram-se mais receptivos aos mecanismos de mercado, que encaram como a melhor maneira de concretizaram a sua agenda ambiental.

 

Uma nova coligação é uma maneira de mostrar que um novo começo, na política alemã, pode funcionar. E esse novo começo poderá alargar-se à Europa, com uma cooperação franco-germânica mais próxima, em particular, baseada na aceitação de um papel maior não apenas para o mercado, mas também para as instituições europeias reformadas, que monitorizam e supervisionam os processos de mercado. Há muitas áreas – questões de segurança, cooperação militar e as necessidades imediatas dos refugiados – nas quais um esforço europeu comum é necessário.

 

A Alemanha não pode sair da armadilha de Weimar pensando apenas na Alemanha. A resposta à incerteza política é a estabilização dos sistemas europeus e internacionais. Essa é a última lição das políticas de Weimar: foi quando a ordem internacional se desintegrou que os ganhos da cooperação doméstica pareceram escassos e os custos da retórica radical caíram. Só uma Europa estável pode manter afastados os fantasmas do passado.

 

Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton e membro sénior no Center for International Governance Innovation.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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