João Costa Pinto
João Costa Pinto 09 de outubro de 2017 às 19:54

O financiamento das empresas - (CIV)

A necessidade de encontrar fontes de financiamento alternativas ao crédito bancário é comum à generalidade das economias do euro.

1. Num dos últimos artigos, deixei uma interrogação em relação ao impacto - sobre a modernização do tecido produtivo e sobre o crescimento - da continuada retracção do volume de crédito bancário concedido a empresas. Na verdade, o efeito final desta evolução, tanto a nível macroeconómico como sectorial e mesmo microeconómico - das empresas -, é muito complexo. Está, nalguns casos, a reduzir o nível de alavancagem por dívida bancária de curto prazo e a forçar a entrada no tecido produtivo de recursos e capitais externos ao mercado bancário. Trata-se, neste caso, de um efeito que vai contribuir para fortalecer a estrutura financeira das empresas envolvidas. No entanto, na ausência de fontes e de instrumentos alternativos de financiamento, a redução dos fluxos de crédito bancário às empresas tem um forte efeito depressivo: trava tanto o lançamento de novas empresas, com um impacto negativo sobre a inovação e a renovação do tecido produtivo, como reduz o investimento de que depende a modernização e a produtividade de muitas empresas, bem como a capacidade produtiva instalada. O comportamento favorável da nossa economia - com a aceleração do crescimento e uma evolução igualmente favorável da receita fiscal global - e os seus reflexos sobre a opinião das agências de "rating" podem levar a subavaliar estes efeitos. Esta aparente contradição desaparece se tivermos presente o mais importante "motor" do nosso crescimento actual - o turismo - e os sectores que este está a impulsionar. Em particular a hotelaria, a construção e o imobiliário, com reflexos positivos sobre a criação de emprego, embora de baixa qualificação e produtividade e nalguns casos sazonal. Pelo contrário, considero que a evolução favorável da nossa economia deve ser entendida como uma janela de oportunidade para o lançamento de um movimento de diversificação das fontes e dos instrumentos de financiamento das empresas. De outro modo, estas continuarão dependentes de uma oferta de financiamento bancário escasso e de curto prazo, que favorece a reprodução de um tecido produtivo atomizado e frágil. Em artigos anteriores abordei o interesse em criar condições - institucionais, técnico-operacionais, jurídico-regulamentares e fiscais - favoráveis ao desenvolvimento gradual de segmentos do mercado de capitais, especializados em dívida titulada quer de PME quer soberana. Evolução que deve ser articulada com soluções que permitam retirar do balanço dos bancos créditos improdutivos de empresas economicamente viáveis - NPL(*).

 

2. A necessidade de encontrar fontes de financiamento alternativas ao crédito bancário é comum à generalidade das economias do euro. Na verdade, o interesse em desenvolver mercados de capitais integrados - a caminho de uma União de Capitais e Financeira - é uma evolução hoje reconhecida como necessária à consolidação do próprio movimento de integração da Europa do euro. Neste contexto, além de responder às necessidades de financiamento das empresas e do Estado, devemos modernizar o nosso mercado financeiro, de modo a participar no inevitável movimento de reorganização da intermediação financeira na zona do euro. Questão para próximo artigo.

 

Economista

 

(*) - NPL: "Non-performing loans."

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