João Costa Pinto
João Costa Pinto 14 de fevereiro de 2017 às 19:24

O financiamento do crescimento - (XC)

Permaneço convencido de que a resposta às dificuldades actuais deve passar por um processo de reorganização do nosso sistema financeiro, lançado ao longo de dois eixos de actuação.

1. Na situação em que a nossa economia se encontra - com elevados níveis de endividamento externo e baixas taxas de poupança interna -, a questão do financiamento assume uma importância crítica que deve ser avaliada à luz de dois tipos de preocupações: por um lado, preservar o acesso a fontes de financiamento externo; por outro, assegurar a implantação de mecanismos de intermediação financeira, capazes de responder de forma adequada às solicitações da economia. Em artigos anteriores abordei a primeira, ao chamar a atenção para os riscos do impacto de uma alteração da política monetária do BCE, sobre os mercados onde nos financiamos. Quanto à segunda, trata-se de assegurar uma adequada oferta de financiamento, capaz de ir ao encontro das necessidades de consumidores, produtores e investidores. Questões que estando embora presentes noutras economias do euro, assumem uma importância particular nas que se debatem com endividamento elevado e em que os mercados bancários se encontram "virados" para complexos processos de consolidação e redimensionamento. Trata-se na verdade de reconhecer que as pressões que os bancos estão a ter de absorver - regulamentares e prudenciais, tecnológicas e mesmo políticas e sociais - estão a reflectir-se nos seus critérios de risco e a travar os fluxos de crédito novo. Situação que, em particular, tem vindo a condicionar o financiamento de muitas empresas com impacto negativo sobre o relançamento económico e o crescimento.

 

2. Neste contexto, permaneço convencido de que a resposta às dificuldades actuais deve passar por um processo de reorganização do nosso sistema financeiro, lançado ao longo de dois eixos de actuação: por um lado, acelerar a consolidação da situação dos nossos bancos sistémicos e relançar o mercado bancário. O que, por sua vez, depende da estabilização das respectivas estruturas accionistas e de adequados níveis de capitalização, bem como da regeneração dos seus balanços - condição necessária à recuperação gradual dos níveis de rentabilidade; por outro, avançar com a criação de condições institucionais, regulamentares e prudenciais e bem assim fiscais e operacionais, favoráveis à implantação e ao desenvolvimento de segmentos do mercado financeiro alternativos ao do crédito bancário. Trata-se de diversificar as fontes e os instrumentos de dívida de curto, médio e longo prazos, além de abrir e de desenvolver uma oferta de capital e de formas de quase-capital. Questões críticas, dada a fragilidade das estruturas financeiras de muitas empresas economicamente viáveis, que se encontram sufocadas por dívida bancária de curto prazo. Sendo embora crucial aumentar o peso do mercado de capitais no financiamento - o que, além de favorecer um movimento de regeneração do nosso tecido produtivo, aumentaria a capacidade de absorção de choques do sistema financeiro -, o mercado bancário vai permanecer como o mecanismo central de intermediação financeira. No entanto este é, entre nós, integrado por três blocos distintos - grupo público (CGD), cooperativo/mutualista (CA/Montepio) e comercial privado - que, além de pressões comuns, enfrentam complexos e nalguns casos difíceis desafios específicos. Questões para outro dia.

 

Economista

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