Celso  Filipe
Celso Filipe 20 de junho de 2017 às 09:39

O fogo e as cinzas

Há muitas formas de olhar para a tragédia de Pedrógão Grande. Acolhê-las no mesmo tecto, "O fogo e as cinzas", título de um livro de Manuel da Fonseca, é uma escolha admissível, como qualquer outra.

Miguel Esteves Cardoso escreve no Público: "A tragédia de Pedrógão Grande é avassaladora. Humilha-nos com imensidão. A dor cala-nos. Não é altura de tirar conclusões." Também no Público, David Dinis diz que os acontecimentos de Pedrógão Grande exigem que se pergunte: porquê? "Vamos ter de falar de responsabilidade política. E de consequência política. Porque já são anos de mais a fazer o luto."

Os jornais estão povoados por esta dicotomia feita de lamentos e de exigências para expiar a dor. "Não faltará quem atire pedras, quem se apresse a apontar culpados, simplesmente porque não era suposto isto ser possível. O chefe do Governo que demita quem quiser, a ministra sozinha ou acompanhada por mais meia dúzia de responsáveis, nada disso trará de volta quem o fogo levou", argumenta Paulo Baldaia.

Eduardo Dâmaso, no Correio da Manhã, dá um passo em frente e defende a necessidade de tirar as "lições necessárias" desta tragédia que causou até agora 64 mortos. "Para um país que tem nos incêndios um problema crónico, que nunca encontrou um modelo estável de combate, que tem um poder político que já consentiu todo o tipo de negociação na contratação de meios aéreos de outro equipamento, que consente todo o tipo de mediocridade nas hierarquias da protecção civil e quejandos, é imperativo respeitar o luto, mas não esquecer e tirar as lições necessárias."

Fernanda Câncio, no DN, conflui no registo de Miguel Esteves. "Há coisas maiores do que nós, e por mais que queiramos aplacá-las, como a deuses em fúria, e à nossa dor e raiva, oferecendo-lhes o sacrifício de supostos culpados, é apenas estúpido."


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