Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 18 de setembro de 2017 às 19:42

O futuro e o passado

A memória é o pior conselheiro que se pode contratar para os assuntos políticos. A memória projecta no futuro um passado que já não existe, e quem se orientar por esse retrovisor não se apercebe da curva que abre para o futuro.

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A FRASE...

 

"Na arte de ser pior, como nós não há quem. Mais um. Desta vez é a Lituânia. Podia ser outro qualquer. Já não interessa quem. Nós a vê-los passar. Detestamos comparações europeias porque perdemos sempre."

João Vieira Pereira, Expresso, 16 de Setembro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Seis anos depois de termos perdido a classificação de grau de investimento, uma das três grandes agências de notação financeira retira-nos do estatuto de lixo e volta a integrar-nos na categoria financeira das economias em que os fundos de investimento podem investir sem estarem estatutariamente limitados por um grau excessivo de risco. Mesmo que tivesse havido a ajuda insubstituível do Banco Central Europeu, com a sua política de injecção de liquidez na Zona Euro, este resultado positivo vem mostrar que o programa de ajustamento elaborado e acompanhado pelo FMI, pela Comissão Europeia e pelo BCE, apesar das resistências que desencadeou e que prejudicaram a sua execução, tinha identificado os principais factores dos desequilíbrios e tinha medidas adequadas para a sua correcção. E todos os que, entretanto, asseguravam que não poderia haver recuperação da economia portuguesa com esse tipo de programa, têm agora a oportunidade de reverem as suas convicções, abrindo o horizonte do futuro e apagando a memória do passado.

 

A memória é o pior conselheiro que se pode contratar para os assuntos políticos. A memória projecta no futuro um passado que já não existe, e quem se orientar por esse retrovisor não se apercebe da curva que abre para o futuro. Decide para um mundo que não voltará a existir. Quem invoca o nacionalismo para recusar qualquer interferência externa (mesmo que venha acompanhada de empréstimos de emergência) esquece que o nacionalismo do passado europeu foi construtor de impérios e afirmava-se nessa escala alargada – mas hoje não há um único império europeu. Quem invoca a soberania nacional e o valor da expressão eleitoral como critérios de referência esquece que o espaço de validade desses conceitos é o território nacional delimitado por fronteiras – mas hoje não há nenhuma economia europeia que possa sustentar o seu nível de rendimentos apenas com o seu mercado nacional.

 

O futuro que vamos ter não é o passado que tivemos.

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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